Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

A natureza e a sua resposta às decisões humanas

A natureza e a sua resposta às decisões humanas

A agricultura surgiu quando o homem, na sua evolução, deixou de ser nómada e de recolher da natureza.

As necessidades de alimentos cresceram e a atividade começa a fazer parte das rotinas diárias.

Passaram muitos anos e a população mundial cresceu de tal forma que os alimentos tiveram de começar a ser produzidos de forma a contornar o clima e as limitações de terreno.

Surgiram as estufas, a agricultura de precisão e algumas práticas que no longo prazo se revelaram poluentes e/ou perigosas para a saúde. A luta química cega, o abuso de doses (“mais uma tampinha para fazer efeito”), e dos herbicidas são apenas alguns dos exemplos.

O consumo apoiado pelo aumento do poder de compra pressiona sempre os produtores. Um exemplo de tipo de medidas com objetivo de aumentar a produção foi a campanha das Quatro Pragas ordenada por Mao na China na década de 60 do século passado.

Uma das pragas a ser eliminada eram os pardais com a desculpa da ingestão de grãos de arroz.

Passados uns anos a produção teve um declínio significativo contrário às expectativas. Sem predadores, os gafanhotos, invadiram campos e dizimaram colheitas. O desequilíbrio no ecossistema estava criado e as consequências terríveis com fome para a população.

De forma análoga se enquadram as abelhas nos ecossistemas com a sua função polinizadora e de recolha de néctar das flores. A sua falta, como afirmou Einstein, levaria à extinção da Humanidade em 4 anos. Com provas dadas da sua importância, a proibição recente do uso de fitofármacos com mortalidade elevada nas abelhas foi uma batalha ganha não só para os apicultores mas também para todos os consumidores em geral.

Os produtos que vão deixar de ser utilizados em 2019 pertencem à família dos neonicotinóides, descobertos a partir da molécula da nicotina, uma das mais perigosas quer em termos de aplicação quer em modo de ação.

As diversas famílias de fitofármacos têm formas de atuação diferentes à semelhança dos medicamentos para os seres humanos que vão desde os antibióticos aos anti-hipertensores ou analgésicos, as dos fitofármacos têm também famílias e grupos.

Como a maioria das pragas e doenças nas culturas são causadas por seres vivos, há que aplicar a biologia e tentar eliminar a praga. Nesta linha de raciocínio, os fitofármacos têm uma vertente de ação biológica uma vez que atuam ou no sistema nervoso, nos músculos, na respiração celular, no crescimento ou desenvolvimento de um inseto ou bactéria.

Os neonicotinóides, especificamente, atuam no sistema nervoso e nos músculos através dos neurorecetores quer por bloqueio quer por substituição, alterando o funcionamento do sistema e por consequência a morte do inseto. Neste caso específico desta família, imitam e competem com um neurotransmissor não permitindo a sua quebra.

Desta forma mantem ativação permanente da acetilcolina causando hiperexcitabilidade do sistema nervoso central devido à transmissão contínua e descontrolada de impulsos nervosos.

Os sintomas resultantes da intoxicação são semelhantes e incluem tremores, convulsões e, eventualmente, colapso do sistema nervoso central e morte.

Apesar das diferenças entre o sistema nervoso humano e o dos insetos, existem semelhanças no seu funcionamento básico por impulsos e uma dose maior terá um efeito semelhante e daí a importância das doses e dos cuidados na preparação das caldas para efetuar tratamentos com fitofármacos. Um dos fatores que pesou nesta decisão de proibição não foi apenas a mortalidade das abelhas mas também a toxicidade para os humanos e a persistência no meio ambiente após a aplicação.

Apesar de tardia, é uma decisão de louvar que deveriam seguir-se de outras porque o Homem não pode querer comandar a natureza que terá sempre a tendência para responder e se autorregular.

O uso de fitofármacos, apesar de estar mais responsabilizado, deveria conhecer mais formas de restrição e de esclarecimento. Para além da pegada ambiental a pegada hídrica é cada vez mais discutida com o peso da água na produção de alimentos.

A título de exemplo, para ter um kg de carne de bovino são necessários 15400 litros, para a de porco são 6000L, para o leite 1000L.

A pressão crescente por parte dos consumidores por produtos de produção sustentável e/ou biológica, sazonal e com pouco impacto ambiental veio trazer muitas questões e mudanças reforçadas pelas notícias a propósito do Dia Mundial do Ambiente para que, por inerência, haja mais saúde e um planeta melhor para se viver nas gerações futuras.

Gorete Fonseca

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