Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Desertificação do interior

Desertificação do interior

Fui convidado pelo novel jornal Letras do Alva a elaborar um pequeno artigo sobre aquilo que pensamos serem os fatores que têm contribuído para a desertificação das nossas aldeias .
A desertificação pode ser entendida de duas maneiras, muito embora ambas estejam interligadas:
1. a perda da capacidade produtiva dos ecossistemas;
2. o despovoamento de determinado território.

Penso que a abordagem pretendida é sobre a segunda e por isso vamos focar-nos, essencialmente, no território que conhecemos melhor ou sejam os concelhos de Seia, Gouveia e Oliveira do Hospital, três concelhos que constituem uma microrregião com as mesmas características, usos e costumes, abrangendo um território que totaliza 971 Km2.
Sendo um problema não só das nossas aldeias – no restrito sentido de proximidade – é-o, infelizmente, de todo o interior do país.
Os anos passados e o caminho percorrido até agora, permitem-me uma visão histórica do passado, uma visão realista do presente e uma visão objetiva do futuro da região, ficando esta última para outra oportunidade.
Recuando para as décadas de 60/70, recordamo-nos de uma região economicamente pujante, detentora de um número considerável de boas empresas, as chamadas grandes, mas outras havia, de menor dimensão que também contribuíram positivamente para que Seia e os concelhos limítrofes fossem vistos como um bom exemplo de progresso.
Havia trabalho, produzia-se riqueza e o futuro era encarado com confiança, os bons profissionais eram disputados e os medianos arranjavam trabalho praticamente onde quisessem.

Relativamente ao que se passou até ao presente, como já referimos noutro local, foi primeiro a crise do setor têxtil, depois o aparecimento de economias emergentes com mão-de-obra barata a provocarem a derrocada de outros tipos de indústria e mais tarde o aparecimento das grandes superfícies comerciais que estrangularam praticamente o comércio de rua e os pequenos estabelecimentos de aldeia. O silêncio substituiu o barulho das máquinas a trabalhar nas unidades industriais e as grandes superfícies de distribuição aniquilaram o pequeno comércio. A retirada de alguns serviços públicos das zonas do interior, como o encerramento de escolas, de centros de saúde, dos correios e até de alguns tribunais, acentuam ainda mais a degradação das condições económicas, educativas, de acesso à saúde e à justiça, levando à migração das populações, sobretudo dos mais jovens, a maioria deles possuidores de conhecimentos académicos e científicos, que vão ser aplicados nas respetivas zonas de acolhimento. Outras das razões que consideramos fatores de desertificação desta região de Portugal é a falta de acessibilidades aos grandes centros de consumo e de exportação (portos e aeroportos), - as densidades populacionais mais elevadas encontram-se no litoral - falta de investimento nos sectores produtivos e na agricultura, etc. Respondendo à questão em epígrafe, poder-se-á chegar à conclusão de que esta nossa região enfrenta um sério risco de uma ainda maior desertificação, tornando-se numa região pobre, velha e abandonada, que resulta essencialmente de causas estruturais, nomeadamente a ausência de políticas de coesão social e de desenvolvimento do interior. No entanto, permitimo-nos ainda encarar o futuro na esperança de se inverter a situação atual, já que, aos bons exemplos do presente, constituídos por algumas empresas dos sectores do calçado, têxteis, metalúrgico, lacticínios, panificação, enchidos, vinhos, serviços, turismo, etc, temos de juntar a capacidade de captar investimento do sector produtivo, incentivar a produção florestal e a agrícola, impulsionar a exportação, mobilizando recursos e competências.