Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

O mel: da flor à colher

O mel: da flor à colher

Os incêndios que devastaram o país nos últimos meses têm, como é sabido, um efeito devastador na flora e nalguma fauna. Na zona da Serra da Estrela não são apenas os rebanhos que pastam. As abelhas também e, a par da seca, os incêndios, contribuíram para a diminuição da pastagem.

A chuva, a tão esperada e desejada água, tem demorado a chegar. A ausência de árvores não ajuda a criar as condições mais propícias para que haja pluviosidade. A natureza definha e as atividades agrícolas em geral poderão ser no próximo ano um luxo. Os custos de produção estão a subir e muitos se questionam se vale a pena continuar.

Para a produção de mel as abelhas recolhem néctar das flores num raio entre 3 a 5km da colmeia ao mesmo tempo que polinizam permitindo a produção de um fruto. A ausência de abelhas tem assim um duplo prejuízo: diminuição da produção de frutos e de mel.

Doce mas com propriedades medicinais que advêm das plantas que as abelhas visitaram, o que influência também a cor, o mel é hoje um dos produtos mais procurados e consumidos. Há quem prefira o claro com origem maioritária no rosmaninho, laranjeira e alfazema e quem prefira o escuro com base nas urzes que lhe conferem um sabor mais forte. As cores intermédias são normalmente designados como multifloral em que não há dominância de uma única planta na análise polínica.

Em Portugal o consumo de mel está maioritariamente associado a estados gripais e afeções de garganta, em oposição noutros países a regularidade e objetivos de consumo ultrapassam as nossas tradições. Na Eslovénia o dia do pequeno-almoço com mel foi instaurado na terceira sexta-feira do mês de Novembro e já é considerado dia Europeu do Pequeno Almoço com Mel. Neste dia, os apicultores visitam escolas e jardins-de-infância para sensibilizar as crianças quer para a importância das abelhas e do consumo de mel. Por cá, esta tradição ainda não foi adotada mas talvez se caminhe para uma mudança nos apicultores a par dos serviços de polinização.

Mas não é apenas no hábito de ingestão de mel como medicamento que a maioria dos consumidores portugueses precisam de mudar. Há que saber escolher e ler atentamente os rótulos. No primeiro aspeto, o critério de escolha tem sido muitas vezes através do “famoso” teste da bolha: um frasco de mel é, num movimento de rotação de 180º, invertido enquanto se aguarda que se forme uma bolha de ar que migra naturalmente para o fundo do frasco. Ora, este teste não tem qualquer fundamento científico e a sua formação depende do espaço entre o mel e a tampa e a consistência do mesmo. Um mel com um grau de cristalização superior a 50% dificilmente formará bolha. E quer isso dizer que já não é bom? E a cristalização depende do tempo decorrido após a cresta e as condições de conservação, nomeadamente a temperatura e a exposição à luz solar.

No segundo aspeto, o rótulo terá de ter a indicação da origem do mel e muito do mel à venda nas prateleiras dos supermercados tem a indicação de “Mistura de méis UE e não EU”. Esta designação deveria ser complementada com a indicação dos países de origem dos méis usados bem como a percentagem de cada na composição de cada lote. A lei indica que poderá ser utilizada qualquer uma das designações mas a maioria dos operadores optou pela primeira.

Convém aqui salientar que o mel da China e de outros países fora da UE têm na sua maioria problemas sanitários e não de composição. Ou seja, o local, instrumentos e maquinaria utilizada na extração não estavam nas devidas condições de higiene. Este mel é depois misturado com outro, obtido nas condições devidas, e muitas das vezes, quer de um quer de outro local de origem são lotes antigos, já cristalizados que são aquecidos e misturados. Em resumo, um rótulo que use a expressão “Mistura de méis UE e não EU”, deveria ser evitado o seu consumo, por várias razões: méis aquecidos são méis que perderam parte das suas propriedades e a sua compra estimula a cadeia comercial e as suas más práticas.

Apesar da AR já ter recomendado ao Governo que mude a legislação no sentido de ser obrigatório nos rótulos conter as duas designações, até ao momento isso não foi feito.

Os hábitos de consumo têm assim consequências a curto e longo prazo. Optar por comprar um mel nacional é estar a estimular a apicultura e a melhorar a economia do país. É estar a valorizar um alimento natural e com tantas propriedades. Comprar um mel misturado é estar a criar uma procura que obrigará a aumentar a produção para satisfazer essa procura.

Esperando que a chuva nos ajude a recuperar e a repor a flora para as pastagens das nossas ovelhas raça Bordaleira e para as abelhas, a Serra da Estrela vai continuar a ser um destino de eleição oferecendo produtos de boa qualidade.