Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

RAIO DE REALIDADE

RAIO DE REALIDADE

Não poderia deixar de partilhar com os meus amigos leitores do “jornal Letras do alva” uma pequena conversa com um amigo que já não via há mais de 25 anos, e que não passou de um desabafo de alguém que trabalhou a vida inteira á espera de uma velhice digna e que agora e olhando para trás se sente usado e ao mesmo tempo revoltado.
Perguntei eu a este meu amigo e ex-colega de trabalho que já não via há muitos anos. "Mas que raio de realidade é esta em que nós vivemos?" - Eu vivo na realidade real, - respondeu-me ele, naquela que existe e faz parte do dia-a-dia das pessoas. Sem nenhum rodeio, lá me foi respondendo há maneira dele..., Num raio de realidade de quem deu a vida a trabalhar numa Metalúrgica agora já destruída, de quem trabalhou a vida inteira, produzindo vinho, azeite, cereais, bovinos, caprinos e ovinos, chega aos oitenta e dois anos e fica só, abandonado, nas terras que cultivou a vida inteira, sem eira nem beira, sem ter um Centro de Saúde e um Médico de família que lhe cuide das doenças… Num raio de um país que deixa morrer idosos que trabalharam a vida inteira e remodela prisões com ar condicionado, ginásios e tv por cabo… Num raio de um país que encerra hospitais e oferece viagens grátis até aos 25 anos de idade aos filhos dos funcionários dos comboios… Num raio de um país que é este, que coloca apenas uma viatura de emergência médica em distritos gigantescos, onde neva, onde as populações trabalham arduamente, e que se preocupam mais com adoções e aberrações… Num raio de um país que não prende quem rouba milhões e quase enforca quem não ganha tostões… Num raio de um país que deixa ladrões de milhões passear pelas tvs e prende quem manda um piropo… Sabes o que sinto às vezes e o que me apetece fazer perante esta triste realidade que cada vez mais nos faz sofrer? É morrer… - Mas que raio de presente é este em que vivemos? De um passado suportado em pilares do trabalho duro e sacrifício total, sempre à espera de um futuro que lhe prometera. E mais um ano passou, assim, perante tanta gente "séria", que ao ver esta triste miséria ainda tem força para sorrir. O que é que nós pedimos? Apenas mais de justiça, que varra toda esta mixórdia que nos encharca até ao pescoço, nos sufoca e nos tolhe a nossa única fortuna: A ESPERANÇA.

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