Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

A rua da minha aldeia

A rua da minha aldeia

Nos últimos dias durante o serão, tenho feito algumas caminhadas a pé pelas ruas da minha aldeia. Hoje, numa noite quente de verão como tantas outras, passei numa rua ao fundo da Vila da minha aldeia. Rua essa, que levara às minhas raízes, não encontrei ninguém, a rua estava deserta. Onde estarão as pessoas? Nessa mesma rua, a minha infância era movimentada e ouviam-se sempre vozes na rua, as casas tinham sempre a chave na porta para quem quisesse entrar, para que com isso não precisassem de bater. Debulhava-se ao serão o feijão com os vizinhos e colocava-se a conversa em dia enquanto nós, os miúdos, brincávamos às escondidas, à apanhada e a outras brincadeiras que nunca mais tinham fim. As nossas mães vinham à janela e chamavam-nos: ó Tóó…, ó Quiiim…, ó Zéé..., andávamos sempre na brincadeira até altas horas da noite. As mães da rua da minha aldeia tinham uma expressão de sacrifício estampado no rosto. Ralhavam muito com os filhos, queriam tudo limpo e que eles principalmente não atirassem pedras nem dissessem asneiras. Essas mulheres também se zangavam muito umas com as outras. Havia fortes discussões em plena rua e nós as crianças parávamos as brincadeiras para assistir às discussões e ouvir os insultos e palavrões. Agora, na rua da minha aldeia, muitas casas estão vazias. As portas e janelas estão fechadas e algumas com os vidros partidos embrenhando mato e bicharada. Muitas pessoas já morreram e as casas foram morrendo também. Em algumas ficaram mesmo só as pedras e as lembranças de quem por ali morou. As ruas da minha aldeia agora, já não parecem com a rua da minha aldeia quando era gaiato mas, apesar disso, serão sempre as ruas da minha aldeia. São ruas nossas que não temos coragem de as deixar, ruas tão amplas que nos levam até onde os nossos sonhos permitirem e a realidade autorizar. São lembranças da vida em tempos difíceis, em que a coragem se refletia não só na aceitação do destino, mas também no seu repúdio pelos que as trocaram pelas aventuras num mundo em que a humanidade ainda é a mesma. Mas disfarçada pelo caminhar do tempo! Final de tarde, ao longe, o sino desperta a Natureza e irrompe pelas casas a dentro. Algumas mulheres da minha aldeia rezam ainda, quase sibilando. O silêncio nas ruas da minha aldeia é ensurdecedor e esconde-se juntamente com o sol, vagaroso, até desaparecer no horizonte.