Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Numa Aldeia Portuguesa, com certeza…

Numa Aldeia Portuguesa, com certeza…

Longos vão os tempos em que os caminhos da nossa terra, entre muros e casas de pedra que se acumulavam, entre mãos rugadas e rostos envelhecidos do trabalho ardo. Aqui, no caminho das pedras que os pés sentiam, choravam sem gritos quentes, apenas um estremecer de gelo em papel de solidão admirável. Como podem vocês deixar ao abandono um território tão fértil? Onde estão as crianças a correr na calçada o dia todo chegando a casa ao entardecer todos sujos e suados, com os joelhos deitados a baixo e com mais uma unha do pé que ficou para trás a jogar à bola, com duas balizas feitas com pedras soltas da calçada. Tudo isso existiu e foi esquecido, entre silêncios que ninguém quer ouvir. Por aqui não se fechavam cães nem gatos em apartamentos vivendo encurralados e sem liberdade, com exceção daqueles minutinhos que vão à rua dar uma ”mijinha”, por aqui não se sofria com o que não tínhamos, por aqui vivia-se com o que a vida nos dava, honradamente e os nossos corações eram autênticos, tal como as nossas tradições! A vida tem um fim, isso é uma realidade e é com ela que muitos parecem não viver nem querer conviver. Aqui, na nossa aldeia, vivia-se o dia-dia sabendo que um dia a morte chegava, sendo esse um dia qualquer, hoje, amanhã ou depois, podendo-nos levar aos dois sem à porta bater, sem olhar a meios, sem escolher por classe ou nível social. A vida aqui antigamente era vivida hoje e agora, sem que algo ou alguém nos limitasse desta coisa a que chamamos vida, as pessoas deitavam as sementes à terra e ficavam à espera que elas crescessem e no entretanto viviam convivendo uns com os outros. Aqui a maior riqueza eramos nós, as pessoas, pois são estas as únicas que nos podem tornar eternos. Como puderam e podem os políticos desprezar tamanha riqueza? Como podem as pessoas hoje desperdiçar este capital humano e patrimonial? Como podem os jovens da nossa aldeia deixar ao abandono ou mesmo deixar cair as casas dos seus avós, ou dos seus pais na aldeia que os viu nascer e crescer, para depois irem investir e morar num apartamento na Vila ou na Cidade a poucos quilómetros, isso é um bom exemplo da nossa aldeia em que os filhos da terra que voltam sempre quando podem, mas só de passagem, num ou outro fim-de-semana ou num dia de festa, não compreendo, a nossa aldeia tem todas as condições para que as casas antigas sejam requalificadas e que sejam habitadas por esses jovens e que a nossa aldeia volte a ser o que era antes... Enfim, só sei que nada sei e que do que sei já ninguém quer saber.

"Da minha aldeia vejo quanto da Terra se consegue ver no Universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer… " Fernando Pessoa

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