Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Telenovelas

Telenovelas

Há algumas décadas a TV Globo era uma autêntica fábrica de telenovelas, tal era o caudal produtivo que nos entrava porta dentro, sendo algumas delas, ainda, a preto e branco. Os canais televisivos nacionais não perderam tempo, na ânsia de ganhar audiências ou com receio de as perder, desataram a copiar esta tendência originária da América do Sul (Brasil, México etc.). Verificou-se então, que as telenovelas que tinham maior número de espectadores, eram, sem sombra de dúvida, as que tinham o maior número de escândalos, enredos e criminalidade. As conversas que se escutavam em locais públicos, assentavam, na esmagadora maioria, em comentários e analises dos referidos escândalos que se viam no pequeno ecrã. Ao principio, e como eu não via as ditas cujas, dizia cá para os meus botões: esta gente passa a vida a falar da vida dos outros e sabem mais dessas do que das suas! Uma autêntica epidemia para ocupar aqueles que não falavam ou não gostavam de futebol. Aproveitando esta nova moda, surgiram os políticos que, não querendo deixar por mãos alheias os seus créditos, passaram eles a fabricar, em produção “non stop”, escândalos. Claro que isto tinha agregada uma excelente campanha publicitária, cujos resultados foram amplamente conseguidos: misturar os escândalos fictícios com os reais. Este fenómeno permitia confundir as pessoas, que ao comentar todas as telenovelas, séries e afins, nunca sabiam se falavam de factos reais ou situações virtuais. A produção nacional de escândalos tem vindo a aumentar de quantidade, bem como de qualidade. A divulgação em massa das historias de escândalos e criminalidade, resultou tão bem ou melhor do que uma campanha de vacinação nacional. O resultado está bem visível: estamos quase todos imunes a esses acontecimentos. São comentados pela opinião pública com tanto desinteresse como se de novelas se tratassem. Os efeitos para os intervenientes, são os mesmo que para os actores que representam esses papéis: são castigados virtualmente, pela representação e não pelo acto real. Paradoxalmente há gente que aplaude essas performances reais, pois espera, colando-se aos seus executores, vir um dia a poder ser actor fictício de novelas reais. O conceito de globalização foi muito bem elaborado, pensado e maravilhosamente bem executado, levando a esmagadora das pessoas a acreditar em tudo o que lhe dizem ou ouvem, porque a ficção se confunde com a realidade. Onde começa uma e termina a outra? Neste fenómeno de massas, a realidade tem contornos de novela; transforma a realidade em ficção com a finalidade de não culpar os actores, ilibar os guionistas e punir os espectadores.

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