Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Turismo de Aldeia(s) e desenvolvimento regional

Turismo de Aldeia(s) e desenvolvimento regional

Os principais conceitos em torno do turismo de aldeia(s), num contexto territorial eminentemente rural, revela-se necessário para compreender a sua contextualização teórica e, a partir desse conhecimento, promover uma análise e discussão sobre a evolução dos principais projetos de desenvolvimento turístico implementados em Portugal, de modo a promover a sustentabilidade de regiões de baixa densidade. Assim, pretende-se contribuir para a estruturação de um modelo de desenvolvimento turístico adequado à atual realidade de espaços crescentemente desumanizados e com problemas sociais e económicos estruturantes que, por consequência, também contribuem para desequilíbrios dos sistemas ambiental e cultural destes espaços que, no entanto, possuem enormes potencialidades turísticas. Neste âmbito, este artigo no Letras do Alva deseja apresentar os estudos de caso mais importantes na região Centro de Portugal que, serão, obviamente, as Aldeias Históricas de Portugal e as Aldeias do Xisto. Em contraponto refletimos sobre a emergência de outra marca relevante dentro deste conceito de turismo de Aldeia(s), que se vai procurando afirmar no contexto regional e nacional, designado Aldeias de Montanha.
Para contextualizar o interesse da temática citamos Kastenholz et al. (2014), pois “a experiência turística em meio rural, entendida como uma experiência global do destino, vivida pelos visitantes de territórios rurais, envolve uma grande quantidade e variedade de recursos, atrações, serviços, pessoas e ambientes, nem todos desenhados especificamente para utilização turística, mas que condicionam a experiência vivida e são alvo de procura turística. Assim, o potencial da experiência turística nestes destinos rurais está muito dependente dos recursos e do património (material e imaterial) existentes nas Aldeias e no território envolvente”. Tendo em consideração o Projeto ORTE (Overall Rural Tourism Experience), desenvolvido pelas autoras, as diversas dimensões do contexto das três Aldeias analisadas, que têm como denominador comum o facto de terem beneficiado de investimento público para a preservação do seu património e para o reforço da sua atratividade turística: Janeiro de Cima, pertencente à rede das Aldeias do Xisto; Linhares da Beira, integrada na rede das Aldeias Históricas de Portugal, e Favaios, que integra a rede das Aldeias Vinhateiras. Em particular, a Rede das Aldeias do Xisto tem ao dispor dos turistas, e dos residentes, um conjunto de atividades e eventos diversificados, associados aos produtos de turismo de natureza, turismo ativo, touring cultural e paisagístico e turismo gastronómico.
Na abordagem destas mesmas 3 redes de aldeias em Portugal, Capela e Figueiredo (2014: 377) também abordam a promoção do rural, pois consideram que o turismo e as atividades associadas “têm-se constituído como centrais, sendo frequentemente apontados como mecanismos de revitalização e desenvolvimento local. A promoção turística constitui-se como um aspeto muito relevante na representação, consumo e reconfiguração de muitos destes territórios, contribuindo para a formação de um imaginário social sobre o rural através da sua apresentação frequente como espaço idílico e pleno de oportunidades de recreio”, que conduz ao título do artigo “Mergulhar num mundo mágico”, resultante da análise de conteúdos dos materiais promocionais (textuais e visuais).
No seguimento desta breve abordagem teórica gostaríamos de citar um artigo de imprensa de Imagens de Marca - “3” Aldeias de Portugal (http://imagensdemarca.sapo.pt/entrevistas-e-opiniao/opiniao-1/3-aldeias-de-portugal/), no qual se apresenta a opinião do Dr. Pedro Machado (Presidente da ER Turismo Centro de Portugal). Desde logo a sua reflexão é muito interessante, como já tem sido habitual, sobretudo pela sua interpretação sistémica do turismo e da capacidade de reconhecimento das inúmeras realidades da região Centro. Nesta Região encontram-se exemplos “notáveis de projetos que procuram contrariar esta realidade, alguns deles apresentados na última edição do “Vê Portugal – Fórum Turismo Interno”, que se realizou em Coimbra nos dias 23 e 24 de junho, num painel a que chamamos de ”Potencialidades materiais e imateriais dos territórios – diferenciar, cooperar e empreender”. Trata-se de exemplos de projetos de sucesso, explicados pela sua qualidade, espírito integrador, empreendedorismo, trabalho em rede e envolvimento das populações, e que inspiram pelos resultados obtidos. Também estivemos pela ESTH neste Fórum, que destaca a importância da nossa região, porém temos dúvidas em colocar no mesmo nível 3 projetos que estarão a velocidades muito diferentes. Se a Associação das Aldeias de Portugal (AHP) e a Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto (ADXTUR) se encontram a funcionar em velocidade de cruzeiro, em termos de gestão territorial do destino e da promoção turística das respetivas marcas, designadamente a nível externo, pergunta-se sobre qual a velocidade e a capacidade de aceleração da Associação para o Desenvolvimento Integrado da Rede das Aldeias de Montanha (ADIRAM) e sobre a sua estrutura política e técnica, bem como os seus desafios futuros?
Agora voltamos novamente à referência anterior ao Dr. Pedro Machado, que indica que as Aldeias de Montanha constituem “um projeto à escala supramunicipal, realidade importante no processo coletivo de construção identitária, mas também, pela necessidade de garantir a transparência e a equidade da gestão, perante todos os que integram o projeto. O seu principal desafio? Construir a marca Aldeias de Montanha na mente dos segmentos-alvo (nichos), posicionando-a num território da autenticidade e da genuinidade.” Depois de interpretar estas suas palavras e de reconhecer o ser crer sobre a necessária transformação do interior, de que “tudo isto é gerador de uma enorme riqueza, económica, pedagógica, sociológica e cultural. E é com projetos desta natureza, integradores e conciliadores, que se promove a reestruturação e o equilíbrio nos territórios. E é desta forma, que se perpetua o “saber ser” e o “saber fazer”, a autenticidade de um povo e a sua identidade coletiva. E é também assim que se criam e consolidam algumas das marcas mais autênticas e genuínas do nosso país.”
Na essência estaremos de acordo sobre a importância do Turismo de Aldeia(s), contudo é preciso esmiuçar as realidades dos 3 projetos e constatar algumas diferenças substanciais e problemáticas de “velocidade” que devem ser reconhecidas por quem de direito! Desde logo se pode contatar que projetos associados às Aldeias do Xisto, às Aldeias Históricas ou às termas vão contar nos próximos anos com várias fontes de apoios, nacionais ou comunitários. A Sra. Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) lembra que os Programas de Valorização Económica de Recursos Endógenos (PROVERE) não são novidade, mas foram reformulados na região Centro à luz das novas regras do Portugal 2020. No âmbito do Programa Operacional do Centro, as Aldeias Históricas passam a ter apoios de €2,5 milhões até 2018 e as Aldeias do Xisto o mesmo montante. As áreas classificadas contam com €2,3 milhões, o programa da Beira Baixa €800 mil e as estâncias termais €1,9 milhões (http://expresso.sapo.pt/economia/2017-02-19-Regiao-Centro-tem-mais-10-milhoes-para-dar-vida-ao-interior). Parece que “chegou a hora de puxar pelo interior do país, e estão a multiplicar-se os apoios nos chamados territórios de baixa densidade. Foram recentemente aprovados pela CCDRC 5 programas PROVERE, envolvendo uma dotação global de €10 milhões até 2018, para projetos associados às redes de Aldeias Históricas, Aldeias do Xisto …”. O nosso interesse é, desde logo, fazer uma pesquisa por Aldeias de Montanha nestes artigos e demais documentação oficial (como a Linha de Apoio à Valorização Turística do Interior) mas, rapidamente, percebemos que não estão cabimentados recursos financeiros para este projeto/marca, pelo que também será difícil afetar recursos humanos, tão necessários para estruturar um política e estratégia turística para esta marca, bem como sabemos que será exigente captar investimentos através de vários programas (como o Valorizar).
A criação da rede das Aldeias de Montanha começa no município de Seia com a inclusão de 9 aldeias (Alvoco da Serra, Cabeça, Lapa dos Dinheiros, Loriga, Sabugueiro, Sazes da Beira, Teixeira, Valezim e Vide), pretendendo destacar as potencialidades naturais destas povoações situadas na região ocidental da Serra da Estrela. O objetivo era o de preservar e requalificar o património através de roteiros integrados de turismo da natureza. As Aldeias de Montanha constituem-se, atualmente, como um conjunto de 41 aldeias, constituindo-se como a maior agregação no âmbito deste modelo de desenvolvimento turístico em territórios de baixa densidade da região Centro, reunindo entidades públicas e privadas de 9 concelhos (Celorico da Beira, Covilhã, Fornos de Algodres, Fundão, Gouveia, Guarda, Manteigas, Oliveira do Hospital e Seia).

O recém-empossado Presidente da ADIRAM (http://www.radioboanova.pt/jose-francisco-rolo-eleito-presidente-da-adiram/), José Francisco Rolo, disse que, ao abrigo da presente versão do PROVERE, “a associação está a negociar um financiamento comunitário de 2,5 milhões de euros, admitindo que este montante possa aumentar para 3 milhões de euros. O autarca salientou a importância de promover o turismo na área da ADIRAM, bem como outras atividades e negócios que contribuam para “atrair visitantes e criar emprego”, a fim de inverter a tendência de desertificação das aldeias serranas nas últimas décadas.”
De facto, este ano de 2017 foi designado pelas Nações Unidas como Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, pelo que está lançado o mote para uma inversão de políticas que posicionem o turismo e o lazer como atividades substanciais do desenvolvimento regional, sobretudo no interior de Portugal. Também este ano se comemora em Portugal o tema das aldeias através do Concurso das 7 Maravilhas das Aldeias de Portugal, que terá 7 categorias (Aldeias com História, Aldeias de Mar, Aldeias Ribeirinhas, Aldeias Rurais, Aldeias Remotas, Aldeias Autênticas e Aldeias em Áreas Protegidas). Este projeto pretende transformar as aldeias em produtos turísticos como indicado no plano da Unidade de Missão de Desenvolvimento do Interior, dirigido pela Profª Helena Freitas.
Porque acreditamos neste modelo de desenvolvimento turístico também se espera que as expetativas agora criadas, com o alargamento da ADIRAM, se traduzam em medidas efetivas no âmbito de uma estratégia bem delineada para o desenvolvimento turístico integrado, sustentável e competitivo da região. Foi neste preciso âmbito que o plano de trabalhos do Mestrado em Gestão e Sustentabilidade (ESTH-IPG e ESTM-IPLeiria), no 1º semestre 2016/17, incluiu uma visita de estudo de 1 dia (19 de dezembro de 2016) a algumas Aldeias de Montanha (Lapa dos Dinheiros, Valezim, Loriga e Cabeça) e outra visita de 2 dias (6 e 7 de janeiro de 2017) a Aldeias do Xisto (Barroca, Janeiro de Cima, Fajão e Aldeia das Dez), com o melhor acompanhamento de Rui Simão (coordenador da ADXTUR) e Bruno Ramos (Director de Comunicação e Marketing), que foram excecionais e, inclusivamente apoiaram a estadia. Estas atividades curriculares, enquadradas na UC de Política e Estratégia do Turismo e na UC de Turismo e Sustentabilidade Ambiental foram de enorme aprendizagem, sobretudo pelo reconhecimento do excelente trabalho que a ADXTUR e a sua equipa técnica e política desenvolvem no terreno com as comunidades.
Em termos finais permitam referir que pretendemos também fazer o reconhecimento, brevemente, do trabalho das AHP, no âmbito da UC de Turismo e Património Cultural. Dado que já solicitámos uma entrevista ao Presidente da ADIRAM aguarda-se também, em breve, poder apresentar novidades em termos de modelo de desenvolvimento turístico, plano de atividades e orçamento, bem como eventual equipa técnica para desenvolver a estratégia a adotar para as Aldeias de Montanha.

Foto: Mestrandos em Gestão e Sustentabilidade no Turismo nas Aldeias do Xisto