Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Incêndios no Vale do Alva em 2017 e implicações para o turismo

Incêndios no Vale do Alva em 2017 e implicações para o turismo

Todos constatamos que o turismo é uma atividade socioeconómica fundamental para o desenvolvimento sustentável de Portugal e das suas várias regiões.

O seu enorme impacto faz-se sentir no território e seus patrimónios, sendo que o turismo de base comunitária constitui uma metodologia de planeamento essencial em regiões de interior, designadas de baixa densidade, sobretudo pelo crescente despovoamento e envelhecimento da população, que constituirá um dos seus maiores problemas estruturais.

Na realidade, na evolução da atividade turística, verificou-se que o clima foi determinante como fator de atração das correntes turísticas aos destinos, pelo que a refletida neste texto revela a importância estratégica da antecipação e melhor compreensão dos impactos das mudanças climáticas no território e, consequentemente, na atividade turística. Hoje cremos que o turismo poderá ser afetado pelas flutuações climáticas a nível planetário, bem como pelas suas repercussões em Portugal e, mais especificamente, na região Centro.

Perante os cenários teremos de conhecer as dotações fatoriais mais importantes da região Centro de Portugal, em particular da sub-região do vale do Alva, que se baseiam em recursos naturais, culturais e patrimoniais, com o intuito da sua gestão sustentável para o desenvolvimento turístico e a promoção do lazer das suas populações, bem como interpretar a importância relativa do turismo de natureza como produto estratégico na região do vale do Alva, que inclui o Parque Natural da Serra da Estrela e a Área Protegida da Serra do Açor. Pretender-se-á estruturar um modelo de desenvolvimento turístico integrado e sustentável para uma região essencialmente natural e rural?

Para responder a esta questão teremos também de estudar os impactos e de melhor conhecer a dimensão da catástrofe natural e humana nesta região, decorrente dos incêndios florestais, em particular dos ocorridos em 15 de outubro de 2017, que devastaram violentamente uma parte muito considerável deste território.

O turismo será dos setores mais vulneráveis a eventos resultantes quer de fenómenos naturais quer da ação humana, nos quais podemos enquadrar os incêndios florestais, por resultarem habitualmente da conjugação das duas origens.

Estes fenómenos têm, assim, origem mista, e tornaram-se extremamente violentos em 2017, tendo originado um sentimento de insegurança em várias regiões portuguesas, sobretudo na região Centro e na Norte de Portugal.

Podemos considerar que, em termos de risco, muitos incêndios são associados atualmente a fenómenos naturais que tendem a extremar-se pelas condições climatéricas, que se agravam pela conjugação da seca e de ventos ciclónicos, como se observou em Portugal na Primavera e no Outono de 2017, tendo como consequência a perda direta de mais de 100 vidas humanas! Contudo, assume-se uma combinação de circunstâncias que também resultam da ação humana, pois muitas das ignições serão dessa origem, podendo revestir uma razão negligente ou criminosa.

Constata-se que as fontes de risco no turismo são diversas, incluindo “fenómenos naturais extremos, alterações climáticas, desastres ambientais, problemas de saúde pública, perturbações associadas aos sectores da energia e do petróleo, crises políticas, crises económico-financeiras, terrorismo”, que podem colocar em causa a segurança de visitantes num destino. É precisamente no âmbito da resiliência e da gestão do risco que teremos de estudar e conhecer melhor as tendências das alterações climáticas e suas implicações no turismo, pois decorrerão oportunidades, mas, sobretudo, grandes desafios para a Humanidade, daí a indispensabilidade de as enquadrar no planeamento turístico com vista ao desenvolvimento sustentável de uma área de destino.

Na realidade, Portugal apresentará cada vez maior exposição a diferentes fenómenos naturais extremos e com diferenças regionais significativas. A extensa orla costeira destaca-se devido ao fenómeno da agitação marítima e por apresentar crescentes processos de erosão, que ocorrem em algumas áreas densamente povoadas e com muita infraestrutura turística, pelo que o impacto das alterações climáticas será sentido com maiores implicações ao longo da costa litoral portuguesas, como se observou com diversos tornados na região Algarvia em abril de 2018, que são classificados como fenómenos extremos, sobretudo de vento.

Também as alterações climáticas se constituem como importantes preocupações pelas alterações em valores médios do clima e pelo agravamento dos valores extremos.

Os destinos podem perder atratividade devido à alteração do nível de conforto de visitantes (ex. no produto sol, mar e praia), aos impactos nos valores naturais, que são a base dos produtos turísticos de muitas regiões, como a do vale do Alva, bem como a outros fatores indiretos, como por exemplo a alteração de condições para a saúde pública.

Este texto visa equacionar um modelo adequado de gestão sustentável para os recursos naturais e culturais da região do vale do Alva e, nesse âmbito, contribuir para a preservação das características naturais endógenas e a valorização da identidade cultural das suas populações, que podem ajudar na transformação desta área-destino. Os fatores de atração do vale do Alva são caraterizados pela notável diversidade e riqueza inerente aos recursos turísticos existentes, bem como a localização geográfica, pela centralidade na região Centro e razoáveis acessibilidades, a hospitalidade dos residentes, os preços competitivos e o clima de segurança, são apenas algumas das razões que se apontam para evidenciar o elevado potencial desta região, que se situa da nascente no concelho de Seia, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), ao concelho de Penacova, onde o rio Alva conflui no rio Mondego.

Os principais objetivos desta abordagem têm o intuito de interpretar o potencial turístico do destino Alvaland, e de equacionar o desenvolvimento de produtos turísticos estratégicos com vista à afirmação de um modelo de turismo sustentável, designadamente para mercados turísticos internacionais. Porém, os incêndios atrás referidos, constituem um enorme constrangimento para o desejado desenvolvimento do turismo sustentável nesta região e, em particular, devido a uma destruição massiva dos recursos naturais, que serviam de base à atratividade para o pedestrianismo e, assim, facilitavam a afirmação do projeto da Grande Rota do Alva (GRA).

Tendo em consideração o enquadramento apresentado, acredita-se que este produto integrado (GRA) deve ser um dos projetos estratégicos para a Região Centro, pois é fundamental para o renascer ou ressurgimento das cinzas deste território, que era caracterizado, por muitas pessoas residentes e visitantes, como um verdadeiro paraíso natural. Este artigo de opinião pretende, assim, realçar a necessidade de estratégias mais sustentáveis para as regiões rurais e de montanha, nas quais o turismo poderia assumir um papel central no novo modelo de desenvolvimento socioeconómico e ambiental de territórios de interior, como é exemplo o vale do Alva.

Por: Manuel Salgado

Professor Universitário

Foto: Luis Silva