Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Os idosos que vivem isolados são sinalizados. E DEPOIS?

Os idosos que vivem isolados são sinalizados. E DEPOIS?

Ficámos a saber no passado dia 9 que a GNR sinalizou 45.563 idosos a viver sozinhos ou isolados em todo o país em Outubro de 2018, mais 47 do que na operação "Censos Sénior" realizada em 2017, anunciou aquela força de segurança.
Em comunicado, a GNR adianta ainda que o maior número de idosos identificados a viver sozinhos ou isolados foi no distrito de Vila Real (4515), seguido da Guarda (4008), Viseu (3776), Beja (3715), Bragança (3385), Faro (3165) e Portalegre (3156).
Sabemos também que o país está a envelhecer e com o envelhecimento aumentam o número de idosos a viver sozinhos ou isolados mas também sabemos que há cada vez menos pessoas a viverem nas aldeias e portanto se por um lado há idosos a viverem sozinhos por outro no futuro serão cada vez menos no entanto ainda não se verifica isso.
Comparando os dados de 2018 com os de 2017 no nosso Distrito assistimos ainda assim a um aumento em relação ao ano anterior em que Guarda foi o distrito com mais idosos sinalizados (3932) e em 2018 (4008).
Houve um aumento em mais 76 na sinalização de idosos no Distrito da Guarda a viverem sozinhos.
Este estudo, esta operação anual a que a GNR chamou “Censos Sénior” é de todo importante não só para a sensibilização da população em geral sobre este fenómeno como também para as IPSS´s que desenvolvem as respostas sociais Serviço de Apoio Domiciliário e Centro de Dia. É importante na medida em que viver sozinho ou isolado não quer dizer que se esteja mais inseguro ou até desprotegido de cuidados. Sabemos que a GNR enquanto autoridade que tem como missão assegurar a segurança dos cidadãos se foque nestes dados e é de todo importante saber onde vivem as pessoas mas o apoio, a prestação dos cuidados que os idosos necessitam não se fica apenas por números estatísticos, naturalmente.
É certo que no nosso distrito da Guarda estão sinalizados este ano 4008 idosos a viverem sozinhos ou isolados. E depois?
Tão importante como os números apresentados será perguntar: EM QUE CONDIÇÕES É QUE ESTES 4008 IDOSOS VIVEM?
Sabemos e temos conhecimento que há uma grande maioria de pessoas idosas que vivem em pleno século XXI sem água canalizada e sem luz eléctrica. Também sabemos que nas aldeias já não existe o mini-mercado onde se ia fazer algumas compras para comer no dia-a-dia. Também sabemos que fecharam farmácias nas aldeias, fecharam estações de correio. Já não há nada em certas aldeias onde há 30 anos atrás havia tudo. Hoje em dia há idosos a viverem em péssimas condições habitacionais mas ninguém os consegue demover de lá. Ninguém os consegue convencer que é necessário ter água canalizada ou luz eléctrica.
Mais do que números e estatísticas é preciso trabalhar em parceria. Encontrar formas e soluções em conjunto. A própria CCDRC e as Câmaras Municipais devem investir mais em programas que contribuam para melhorar as condições habitacionais dos idosos, pelo menos daqueles que também aceitem ser ajudados. Não basta dizer que estão sinalizados é preciso saber se estão a ter apoio de alguma Instituição, se a GNR sinaliza os casos mais graves à Segurança Social ou IPSS´s das zonas onde vivem estes idosos. Se a GNR faz essa sensibilização quando visita os idosos nas suas casas informando-os que podem ter apoio diário (7 vezes por semana) em suas casas através de refeições, limpeza de casa, lavandaria, controlo da toma da medicação, acompanhamento a consultas médicas por parte das Instituições de solidariedade social locais. Se alguma vez já pediram esse apoio? entre outras questões que a própria GNR pode colocar aos idosos nas visitas “esporádicas” que lhes faz. Dessa feita a importância deste estudo é fundamental no entanto as pessoas, os idosos mais vulneráveis não querem saber de estatística para nada, querem é quem os ajude no dia-a-dia e isso devidamente trabalhado em parceria entre a GNR e as IPSS´s que prestam os serviço de apoio domiciliário e os centros de dia, era fundamental não só para aumentar a segurança dos idosos que vivem sozinhos ou isolados mas também aumentar a sua qualidade de vida sensibilizando-os para aceitarem este género de ajuda, o que por vezes se torna o mais difícil.
Sabemos por experiência própria que há muitos idosos a viverem sozinhos que não aceitam ajuda de ninguém nem de nenhuma Instituição sabendo nós que melhoravam e muito a sua vida.
Também podemos dar como exemplo aqui há uns 15 anos atrás houve um programa da Segurança Social denominado PCHI (Programa Conforto Habitacional para Pessoas Idosas) em que entre outras obras de beneficiação das habitações dos idosos foram feitas casas de banho em casas que não tinham casas de banho. Pensava-se que se estaria a melhorar as condições de vida daqueles idosos. Passados uns meses uma equipa da coordenação do programa visitou alguns desses locais. Encontraram as casas de banho intocáveis, sem uso.
Quero com isto dizer que as vivências das pessoas que hoje são idosas não foram as nossas vivências. Queremos o melhor para os “nossos” idosos. Não duvido que qualquer entidade seja pública ou privada não queira o melhor para os cidadãos, no entanto a maior dificuldade está na maioria das vezes no idoso querer aceitar essa ajuda. Muitos preferem não ser incomodados enquanto segundo eles “vão podendo” quando assistimos muitas vezes que já não podem é nada. Essa sim é a principal dificuldade porque hoje em dia um idoso só não é ajudado se não quiser.
O Serviço de Apoio Domiciliário é na maioria das vezes a família destes idosos, dos idosos que vivem sozinhos e isolados mas que aceitam ajuda das Instituições e é essa sensibilização que a GNR, por exemplo, também deve fazer quando visita os idosos desprovidos de qualquer ajuda institucional. Quando assim for, quando o trabalho for em parceria (GNR, SEGURANÇA SOCIAL e IPSS´s) não tenho dúvidas que os idosos viverão sozinhos, isolados mas mais felizes.
Luis Silva