Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

José Luis Baptista  - Presidente da Banda Torroselense Estrela D´Alva (2016)

José Luis Baptista - Presidente da Banda Torroselense Estrela D´Alva (2016)

Numa altura em que a Banda Torroselense Estrela D´Alva alterou a composição dos seus órgãos sociais e até contratou um novo regente, Letras do Alva foi ao encontro do recém-eleito Presidente da Banda, José Luis Baptista.
Zé Luis, conforme é conhecido entre todos, refere-nos que “é um filho desta terra, é um filho de dois Torroselenses, do José Baptista e da Maria Emília Lavrador, neto do António Baptista mais conhecido porque tinha uns bois e um burro na altura e do Zé Lavrador que tinha um rebanho de ovelhas e principalmente a minha avó Maria Máxima que fazia segundo dizem um óptimo queijo da Serra de que a minha mãe aprendeu alguma coisa e também ainda fez quando eu era novo. “
Nasceu em Torroselo, fez a escola primária em Torroselo, depois foi para o seminário com 10 anos onde esteve até aos 18 anos e “aos 18 achei que não era aquela a minha vocação e saí”. “Saí vim para Torroselo, em Torroselo joguei à bola, fiz parte da equipa de futebol, não era um grande craque mas dava uns pontapés na bola e nessa altura juntamente com um ex-colega do seminário então já formado como Professor organizámos aqui um grupo de teatro, fizemos pelo menos duas representações, uma delas uma obra de Racine, que hoje quando digo isso e a minha filha é actriz ela e os colegas ficam admirados como é que aqui se fez uma peça de Racine, mas fez-se.”
“Na altura depois estive a trabalhar no antigo celeiro em Santiago. Estive a trabalhar no mini-mercado da mulher do Sr. Pires a Dona Fina, e minha prima, e, entretanto chegou o tempo de ir para a tropa, fui para a marinha onde fiquei até onde ainda estou porque a minha situação é a situação de militar na reserva e como militar a qualquer momento poderei ser chamado, duvido que seja mas poderei ser chamado.”
“Pronto e este é o Zé Luis que há um ano e meio está por cá, devido à doença da minha mãe vim para Torroselo, durante um ano andei por aí a ver o que é Torroselo, ou a rever o que é Torroselo, e agora estou aqui como responsável da banda por amável convite da malta mais nova.”

O que é que o motivou a abraçar este desafio de ser Presidente da Banda?
Não referi anteriormente mas também fui elemento da Banda, fui executante. A Banda como eu e a maioria dos Torroselenses pensa, penso eu, é a organização por excelência de Torroselo e para aqueles que não é, é uma das nossas motivações fazer ser e como tal dado o impasse que havia nos anteriores corpos directivos que estavam bastante desfeitos e como sabe a gestão era feita por poucas pessoas, tentou-se mudar isso e foi chegada a altura de fazer eleições, convocaram-se eleições e por conversas que tinha tido com elementos da banda e com esta malta mais nova que faz parte da lista e faz parte dos corpos sociais eu disponibilizei-me para colaborar.
Numa primeira reunião convidaram-me para os liderar e aí eu mediante determinadas condições nomeadamente trabalhar em equipa que para mim é importante foi aceite e cá estou.

Com a eleição da nova direcção entrou também um novo regente. Foi uma opção de inovação ou foram outras questões que estiveram na base dessa mudança?
Foram outras questões.
Ainda na altura do processo dos novos corpos sociais fomos confrontados com uma carta do anterior regente em que declarava que se não fossem satisfeitas determinadas condições que ele entendia que cessava o contrato com a banda. A principal reivindicação do Sr. Marco Paulo era o aumento substancial do vencimento que auferia para quase o dobro daquilo que ganhava. Não vou referir valores mas era um vencimento ao nível do que ele ganha na função pública mensalmente como professor e onde vinha cá duas vezes por semana, ou uma vez por semana e viria fazer um ensaio e viria à escola de música e achámos que era de todo aceitável e não continuámos, embora reconhecendo, aliás toda a gente reconhece que tecnicamente o Sr. Marco Paulo é porventura o melhor maestro de banda da zona centro e isso não fez com que nós pensássemos continuar até porque não tínhamos capacidade financeira para suportar aquilo que ele pedia. Entretanto ele terminou a ligação que tinha e nós pusemo-nos em campo para procurar um novo regente e soubemos que uma banda aqui perto de nós estava com alguns problemas em termos directivos, o maestro iria sair, ou também não estava satisfeito com esta situação, não havia indicações de que ele iria renovar ou não, nós dirigimos-lhe o convite e hoje temo-lo cá e estamos muito satisfeitos com ele.

Esta nova direcção apesar do pouco tempo em funções nota-se que está a imprimir uma dinâmica diferente. Digamos que uma dinâmica muito mais positiva. As boas festas em Torroselo e Folhadosa foram um exemplo disso. É intenção também da banda englobar Folhadosa sempre nas iniciativas que pretendem levar a efeito?
Não lhe posso garantir que seja sempre por questões de apoio funcional nomeadamente os transportes, mas sempre que possível iremos incluir Folhadosa nas nossas iniciativas locais. Penso não estar a fazer revelação de nenhum segredo mas este ano iremos ter mais concertos do género das boas festas. Pretendemos fazer dois a três por ano e iremos incluir Folhadosa com certeza nisso. O Concerto de Natal este ano vamos fazê-lo de forma diferente e está previsto incluir Folhadosa nisso. Também iremos incluir Folhadosa não só na parte da nossa participação digamos assim, mas iremos lá também fazer o peditório e dessa forma inclui-los em tudo.

Que balanço faz da participação da banda na feira do queijo?
A participação das bandas na feira do queijo é uma manifestação cultural, uma manifestação da vitalidade da cultura concelhia muito apreciável, do meu ponto de vista e na nossa participação eu acho que ela foi boa apesar da chuva, apesar de tudo nós tivemos uma optima participação. Penso até que teve algumas repercussões. Posso-lhe dizer por exemplo que a Comissão Paroquial de Seia nos convidou para ir fazer a procissão de Domingo de Páscoa, a procissão da Ressurreição. Infelizmente não vamos poder ir porque temos a nossa, mas foi muito bom termos tido esse convite.

Que balanço faz das comemorações do 108º aniversário da Banda?
Dentro do pouco tempo que temos de trabalho penso que correu bem. No próximo ano penso que vamos fazer algo diferente. Dentro desta casa as coisas correm mais depressa do que parece. Todos os dias há papéis de musica para imprimir, há contas para pagar, há instrumentos para reparar, há palhetas para comprar, há óleos para comprar, há “n” coisas que todos os dias correm e façam com que não seja fácil e que eu agora até dou mais valor a quem cá esteve antes e que trouxe a banda desde o nascimento até ao 108.º aniversário, dou a todos muito valor. Aquilo que foi feito e o balanço que nós fazemos muito bom. Eu tenho pena por exemplo que o preço que nós levámos ás pessoas pelo almoço fosse elevado mas foi o preço que o restaurante nos levou e foi o mais barato que nos foi possível fazer. Este ano pela primeira vez fizemos uma diferenciação entre sócios e não sócios, preço de sócio e preço para não sócio, aos sócios nós levámos aquilo que o restaurante nos levou, aos não sócios cobrámos mais um euro e meio, sabemos que não é nada de extraordinário mas foi feito. O concerto acho que correu muito bem e a homenagem aos ex-executantes já vem na sequencia do tem vindo a ser feito em anos anteriores e enquanto nós estivermos por aqui vamos continuar a fazê-las porque há ainda muita gente para homenagear e que ainda não o foram.

Quais as próximas iniciativas promovidas pela direcção da Banda?
De momento é conseguir angariar o maior numero de festas possíveis, esta é a nossa iniciativa máxima. De resto já conversámos com o maestro para fazermos um concerto de final de ano que poderá ser no Natal ou até antes do Natal mas que será de final de ano e até pensámos uma “coisa” com um nível mais superior, inclusivamente recorrendo a um tipo de musica diferente, mais selecta mas vamos ver, estamos a preparar isso. De momento o nosso grande trabalho é conseguir angariar festas porque é disso que nós vivemos e os subsídios são cada vez menos, são cada vez mais pequenos e cada vez mais difíceis.
Quantos sócios pagantes tem a banda actualmente?
Não lhe sei dizer.
Primeiro porque os que pagaram este ano são relativamente poucos, são bastante poucos mesmo. Os que pagaram o ano passado são cerca de duzentos.
Nós temos 251 sócios inscritos.

Qual o valor mínimo da quota?
O valor mínimo da quota é seis euros anuais.
Também é verdade que temos quem pague cinquenta euros anuais mas não são assim tantos, aliás são muito poucos e aquilo que temos mais ou menos de pagantes o ano passado, eu ainda não fiz as contas, mas o Tiago terá essa contabilidade feita, terá esses dados, mas penso que andarão à volta dos cento e oitenta, cento e noventa pagantes.

Recebem muitos donativos?
Não. Recebemos alguns, poucos, mas recebemos alguns.
A todos aqueles que os fazem deixamos o nosso agradecimento publico, claro que gostaríamos e precisaríamos de receber mais donativos, não que a banda neste momento tenha uma situação económica difícil porque não tem, felizmente. Herdámos uma situação bastante estável e bem sustentada, mas também é verdade que temos pela frente uma série de desafios que vamos precisar de muito dinheiro.

Um desses desafios é o fardamento? Vão fazer um peditório para esse fim? Quando?
Um desses desafios é o fardamento.
O fardamento que nós temos já tem muitos anos. Já está muito remendado no sentido de já terem sido feitas muitas calças novas, já foram compradas muitas camisas novas e cada vez que se compra uma coisa nova se juntarmos a uma coisa já usada faz diferença e os olhares mais atentos notam que o fardamento não está bem. Entretanto também como nós aumentámos o numero de executantes o nosso stock de fardas para pessoas que possam vir para a banda está esgotado e então temos de partir para outra solução, só que ainda não se avançou dada a época do ano em que estamos porque não vamos fazer um peditório a solicitar às pessoas que deem qualquer coisa para ajudar no fardamento quando têm a festa de S. Bento e está a decorrer o peditório e nestas coisas nós sabemos que o dinheiro não estica.
Vamos lançar uma campanha de angariação de verbas para o fardamento e aqui quero desde já lançar um apelo às pessoas que possam ter firmas ou empresas que possam dar alguma coisa nós passamos recibo porque somos uma Entidade de Utilidade Pública, portanto podemos passar recibos dessas quantias podendo usar os recibos nas firmas como entenderem.
É nossa intenção fazer isso a seguir à Páscoa.

Quantos executantes tem hoje a banda?
A banda tem entre trinta e trinta seis executantes.
Como sabe nós temos alguns músicos que não residem cá, por exemplo temos músicos de Torroselo que residem em Lisboa e não podem como é obvio vir a todos os ensaios e a todas as festas por questões do preço das deslocações e por questões da vida privada deles. Temos muita gente de fora da terra e com esses estamos a tentar criar, a tentar fortalecer um espirito de amizade e de colectividade e de colectivismo dentro da banda que os leve a preferir vir para Torroselo do que irem para outros lados e penso que estamos a conseguir. As pessoas que nós temos aqui querem vir para cá. São pessoas que estão cá porque querem.

De que terras vêm alguns desses executantes?
Começando por mais longe, Barril do Alva, Vila Nova de Tazem, para ver os dois extremos. Depois temos Oliveira do Hospital, Catraia de S. Paio, Chamusca da Beira, Póvoa das Quartas, Folhadosa, Arcozelo, Seia, Carragosela, neste momento são as terras de onde vêm os nossos executantes e também os nossos alunos da escola de música.

A escola de musica funciona em que horários?
A escola de música funciona todos os sábados à tarde e neste momento tem cerca de quinze alunos, alguns que já saem com a banda mas continuam a ser alunos da escola de música, continuam a fazer formação.

Há uma idade mínima para se começar a aprender musica aqui na escola?
Normalmente é a idade escolar. A idade de entrada para a escola primária.
Um dos nossos objectivos que faz parte do nosso projecto que levámos às eleições, faz parte do nosso plano falar com as escolas aqui da zona para sensibilizar digamos assim os miúdos a virem para a escola de musica. Aqueles com quem temos algum contacto diariamente, nomeadamente alguns aqui de Torroselo e também de Folhadosa mas temos outros de escolas mais afastadas e que poderiam vir e não vêm, nós temos Sandomil, Vila Cova sendo terras que não têm banda seria mais fácil o recrutamento de pessoas. Isto depois também nos levanta outros problemas, porque quantos mais sítios tivermos onde ir buscar elementos também temos a dificuldade dos transportes para os ir buscar, damos-lhe um lanche durante o tempo em quer estão aqui connosco, vamos buscá-las e lavá-las e portanto isso tem custos. Quantos mais sítios forem e mais diversificados eles forem mais custam e neste momento também temos de repensar as coisas dessa maneira.

Sente que a população de Torroselo apoia a banda?
Sinto que a população de Torroselo gosta da banda, apoiar a banda depende daquilo que for a definição de apoio. Se for apoiar dizendo que gosta, acho que sim. Noventa e nove virgula nove por cento da população diz que sim, que gosta, que é a melhor coisa que cá temos e isso tudo.
No que toca a ajudar do ponto de vista quer do trabalho ou fazer algum trabalho em prol da banda, quer em contribuir financeiramente para o sustento da banda aí a percentagem baixa bastante. Diria que precisamos de puxar essa percentagem para cima e de fazer alguma coisa para levar as pessoas a colaborarem mais um bocado.

Por fim. Uma palavra do Presidente da Banda para a população.
A Banda é a colectividade de Torroselo.
Felizmente ou infelizmente não temos outras.
Sofremos com toda a situação geo-populacional mas nós estamos cá para manter viva a banda e para a levar para a frente e todas as pessoas que quiserem ajudar falem connosco, apareçam, digam qualquer coisa, haverá sempre qualquer coisa que as pessoas podem fazer. Posso-lhe dizer que estamos a pensar pintar ou repintar a sede e não queríamos gastar dinheiro nisso. Vamos fazer um apelo para ter cá pessoas que possam vir fazer isso e agradecia que as pessoas se disponibilizassem, quem pudesse e soubesse se disponibilizasse a isso.
Nós temos uma bandeira já com alguns anos de existência, não está num estado de conservação optimo, o estandarte está pior ainda e então vamos precisar de adquirir uma bandeira ou um estandarte. Principalmente o estandarte terá de ser adquirido num curto prazo uma vez que está bastante deteriorado. Sendo algo que é caro precisamos também de algum apoio para isso. Já temos vários orçamentos e curiosamente o menos elevado é em Oliveira do Hospital. Se alguém estiver interessado em colaborar com a compra do estandarte nós dizemos qual é o preço e o fabricante.
Também precisamos de fazer obras aqui na sede. Estamos a precisar de remodelar as casas de banho. Estamos a construir um regulamento financeiro para a Instituição, um regulamento que nos permita não só ser justos nos orçamentos que fazemos para as festas onde vamos mas também um regulamento que nos permita ser justos e generosos com os nossos executantes, que, como sabe têm uma gratificação no final do ano em função do numero de festas que fazemos e nós queremos regular isso ao mesmo tempo que queremos incentivá-los a vir mais vezes. O regulamento irá prever isso tudo. É um regulamento de gestão financeira que não existe em concreto. Há um modelo que vem sendo seguido há alguns anos mas que nós queremos passar a papel e actualizar, melhorar naquilo que for possível melhorar, até porque nós existimos enquanto existirem músicos.
De resto a banda tem 108 anos e da nossa parte há-de ter outros 108.
Obrigado pela possibilidade que nos deu de divulgarmos a banda através do jornal.