Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Luis “Mineiro”. Um sapateiro de reconhecido valor pessoal e profissional. Um homem que sente Torroselo como poucos sentem.

Luis “Mineiro”. Um sapateiro de reconhecido valor pessoal e profissional. Um homem que sente Torroselo como poucos sentem.

Letras do Alva foi ao encontro do Sr. Luis “Mineiro”. Um sapateiro de reconhecido valor pessoal e profissional. Um homem que sente Torroselo como poucos sentem. Um entusiasta que domina várias matérias. Benfiquista, músico, pensador, analista, Luis Mendes Martins é acima de tudo um homem bom. Um homem sério. Um homem sem pápas na língua. Diz o que tem a dizer, doa a quem doer. A sua pequena oficina situa-se em frente à Igreja Matriz de Torroselo. Ali já viu passar muito movimento. A rua enchia-se de gente até porque houve ali em tempos um aglomerado industrial. Hoje, passam-se dias sem ver passar viv´alma. Fomos conversar com o homem que conhece Torroselo e as suas gentes como poucos conhecem e a conversa fluiu sem olhar ao relógio. Quando demos conta já tinham passado mais de uma hora e meia de entrevista. Convidamos pois os nossos leitores a conhecer um pouco melhor o nosso amigo e conterrâneo Luis “Mineiro”

Com que idade começou a trabalhar esta arte de sapateiro e se era isso que queria?
Comecei a trabalhar esta arte depois da morte do meu pai. Tinha eu 10 anos. O meu pai quando morreu deixou 6 filhos, 3 rapazes e 3 raparigas, o mais velho era eu. O meu pai adoeceu com uma doença chamada tifo. Na altura o único médico que havia aqui era o Sr. Dr. Pina e o único medicamento que havia para tratar o tifo era um xarope e gelo que tinha de ser comprado em Coimbra. Demorava 3 a 4 dias para vir. Eu não queria ser sapateiro. O meu pai era carpinteiro e eu também queria ser carpinteiro. Não queria ser sapateiro. Todos os meus tios eram carpinteiros.

Porquê a alcunha de mineiro?
Para se perceber um pouco melhor a minha história de vida devo começar por dizer que o meu avô paterno não era natural de Torroselo. Era natural de Santa Maria de Reguengos, St.º Tirso. Era minhoto. O meu avô João Martins Marques veio para Torroselo através do avô do Eng. Rocha Fontes que era um grande industrial de Torroselo que tinha estado no Brasil na apanha dos diamantes tornando-se uma pessoa com muitas posses e que mais tarde veio criar várias indústrias aqui. Criou uma fábrica de moagens de farinha, uma fábrica de lanifícios e uma fábrica de azeite, e o homem ao criar aquelas fábricas precisava de uma coisa muito importante que era a água, mas, água não havia. Ele à conta dele já naquela altura queria ir buscar a água que vinha ali da Sr.ª do Desterro e puxá-la aqui para Torroselo para as suas indústrias só que não o deixaram. Como não lhe foi permitido e o homem tinha acabado de construir as fábricas que precisavam de água para funcionar ele teve de começar a procurar água nos terrenos dele. Procurou então um técnico que lhe fizesse exploração de águas. O chamado mineiro. O Rocha Fontes andou por aqui mas não encontrou ninguém que soubesse fazer essa exploração de águas, então soube por intermédio de alguém que havia um técnico de exploração de águas em St.º Tirso e o homem dirige-se a St.º Tirso onde trouxe de lá o João Martins Marques. O meu avô veio ainda garoto. Não conhecia o Rocha Fontes de lado nenhum. Veio e aqui ficou e posteriormente conheceu a minha avó Maria da Conceição Fernandes Figueiredo, com quem viria a casar e nunca mais voltou à terra, tanto que nós não conhecemos família nenhuma da parte do meu avô. Foi assim que o “mineiro do Rocha Fontes” ganhou a alcunha em Torroselo uma vez que era assim que o chamavam.

Sr. Luis com quem aprendeu a arte de sapateiro?
Não havia dinheiro, não havia comida. Nós fomos das casas mais miseráveis que houve aí em Torroselo. Apesar da miséria todas as famílias eram numerosas. Toda a gente trabalhava na agricultura porque não tinha mais nada e quem tinha algumas terras arrendava um bocadinho de terra com preços exagerados e pagas também em alqueires de milho. O meu padrinho Herculano era alfaiate e queria que eu fosse alfaiate mas como eu não tinha jeito não quis ser alfaiate, talvez erradamente mas entendia que não tinha jeito assim como entendia que não tinha jeito para sapateiro mas eu tinha de ir para alguma coisa. Partindo daí andava eu na escola com uma saquita rôta às costas um dia veio ter comigo o Sr. Inácio Póvoas, o chamado “sabe tudo”, que me disse: Oh Luis vais trabalhar comigo para sapateiro e nasceu daí esse interesse. Então comecei a trabalhar com ele e se a vida era complicada mais complicada ficou. Primeiro, nunca me pagou um ordenado. Estive lá 4 anos com ele, nunca me pagou o ordenado. Segundo, eu já não fazia o meu e não ganhava nenhum. Portanto eu para a minha família trabalhando mais era mais complicado. Nem ajudava a família, nem era bem para mim. Eu andava sempre revoltado porque ele tinha muitas terras para cultivar e eu durante o dia lá tinha de ir para a Fonte da ilha, a barroca da quinta, o vale do álimo, o rebolo em S. João juntamente com os homens e à noite obrigava-me a vir fazer serão para ali. Se por um lado me sentia revoltado por outro nem eu nem minha mãe já sabíamos o que havia de fazer à minha vida. Isto passaram-se mais ou menos 4 anos neste martírio quando um dia o meu primo António Pedro me disse que me ia arranjar emprego num senhor de Carragosela que me ia pagar. O meu primo foi lá a uma 5.ª feira e eu na 6.ª feira fui para lá. Cheguei bem cedo ainda o homem não estava na oficina. Bom homem que encontrei lá em Carragosela, bom patrão que encontrei. Chamava-se José. Lá abriu a oficina e perguntou-me se eu era sapateiro, com quem tinha aprendido e pergunta-me de seguida: “o que é que você sabe fazer?”. Eu ensinado pelo Pedro disse-lhe: “sei fazer de tudo”. Ora claro, não podia ser mas também não lhe podia dizer que não sabia fazer nada. O homem para me experimentar deu-me umas botitas novas de um filho, eram umas botitas que se usavam com um canito e com uma fivela e com um tacãozito que aquilo era conhecido como a bota mexicana. Ele queria que eu fizesse umas iguais. Enquanto foi aquele trabalho de palmilhas eu fui fazendo. Quando foi necessário levar à forma, pregar e inclinar aquilo custou. O homem via-me assim atrapalhado. Chegou-se o meio-dia e a bota não estava na forma. Mandou-me almoçar e depois de almoço logo se via. Lá fui comer uns feijõezitos que tinha levado e agarrei-me outra vez à bota a ver se metia a bota na forma para a pregar antes de ele vir. Depois de fazer a primeira a segunda já fiz mais rápida. Pus a bota na forma, palmilhei-a, a fazer o rasto custou um bocado mas também se fez, mas chegou-se a noite e a bota ainda estava muito atrasada e ele disse-me que já eram horas para eu me ir embora até porque o candeeiro a carboreto já estava ligado e chegava-se a noite e eu ainda tinha de vir a pé para Torroselo, mas ainda assim eu era teimoso e queria acabar a bota para demonstrar que sabia. O homem foi jantar e regressou e eu acabei as botas. Fiquei todo contente e o homem também. A minha mãe já andava à minha procura. Na altura não havia telefones, não havia nada. Ao outro dia (sábado) lá fui eu outra vez muito cedo. Quando lá cheguei o homem ainda não estava lá e quando lá chegou disse-me: “então oh Sr. Luis outra vez?”. Você ontem fez as botas e hoje o que quer fazer? O senhor. é que sabe o que me há-de dar. Ele tinha lá mais 4 empregados, e, ele ou para me experimentar ou porque não tinha confiança nos 4 empregados voltou-me a dar outras botas para fazer. Eu fiquei admirado. Aos outros não lhes dava nada. Dava-lhe uns “coisos” velhos para fazerem uns remendos ou porem uns tamancos e pouco mais e a mim mandou-me fazer outras botas. Desta vez umas botas de pneu. Como já tinha feito as outras que eram mais difíceis fiz estas muito mais facilmente.


Qual o seu primeiro ordenado?
Quando foi à noite diz-me ele: “então oh Sr. Luis quanto é que eu lhe hei-de dar?”, ou melhor “quanto é que o Sr. ganhava em Torroselo?”. O Pedro ensinou-me que quando ele perguntasse quando é que queria que eu lhe devia responder um pouco à minha maneira, mas para não lhe pedir pouco nem muito. Então eu disse-lhe “ele dava-me 10 escudos” e o homem disse-me que era muito, e que não mos podia dar. O homem começou a sorrir para mim e disse-me: “se ele lhe dava 10 escudos eu dou-lhe 11 escudos” e eu fiquei assim muito calado e muito admirado com o meu primeiro ordenado. Tinha eu 14 anos. Para mim era uma fortuna. Nunca tinha ganho um tostão em 4 anos de trabalho. Por me ver tão calado ainda me perguntou se eu estava aborrecido, se tinha achado pouco. Quando cheguei a minha casa com o dinheiro dei à minha mãe 22 escudos dos dois dias. Ela disse assim “oh meu filho então como pode ser? Enganaste o homem? Roubaste o homem? Fez ali um barulho que ainda me queria como que bater por eu ter trazido aquele dinheiro. Na segunda-feira arranco outra vez para Carragosela novamente cedo e diz-me ele para eu escolher o trabalho que queria fazer. Eu comecei a pegar nuns sapatos que lá estavam que era para modificar, comecei a pegar neles e não me disse nada. Comecei a fazer, a fazer, a fazer, e fiquei admirado ao acabar os sapatos o homem não me dizer se eu estava a trabalhar bem ou se estava a trabalhar mal, mas entendi que os outros empregados que ele tinha já não me falavam nesse dia porque eles entenderam que eu me sobrepus a eles. O Sr. Inácio voltou entretanto à carga com a minha mãe a dizer para eu voltar a trabalhar com ele que me dava mais, porque ele andava aleijado e já não podia e tanto fez a cabeça à minha mãe que tive de voltar a trabalhar para ele mesmo sem querer. Voltei a vir, foi o inferno da minha vida. Ele achou um exagero o serviço que eu fazia em tão pouco tempo e pagou-me a primeira semana. A segunda semana já me disse que me pagava para a outra.


Vocês faziam sapatos para vender ou era só reparações?
Nessa altura fazia-se de encomenda. Encomendavam umas botas, encomendavam uns sapatos, era tudo de encomenda. Para vender naquela altura não. O calçado era tudo por medida. Trabalhei sempre assim, nunca fui aquele género de feireiro, de fazer e ir vender para a feira. Como o Sr. Inácio não me pagou a segunda semana, eu na outra semana já não queria vir trabalhar. A minha mãe insistiu e voltavam a passar as semanas e voltava a não pagar. Umas atrás das outras, até que eu disse à minha mãe que já não voltava para lá mais. Fui para casa e comecei a fazer eu. Começaram pessoas a levarem-me determinados serviços a casa e eu comecei a trabalhar por minha conta. Entretanto um dia veio ter comigo o Camilo de Vila Cova chatear-me a cabeça que tinha de ir trabalhar com ele para Vila Cova e que me pagava bem. Eu não queria mas lá fui para Vila Cova. No Camilo já foi diferente porque eu ia mais evoluído. O Camilo logo me disse que era um sapateiro de fama porque ele fazia umas botas de pneu com linhas grossas e achava que eram do mais seguro que podia haver. Ninguém fazia aquelas botas como ele. O homem tinha essa ilusão. Então dá-me umas botas para fazer.


Que tipo de botas eram as que fazia para o Camilo de Vila Cova?
Eram umas botas de elásticos que os homens todos usavam aquelas botas para o campo. Quando me deu as botas ele logo disse que o calçado dele tinha garantia por dois anos, porque não há melhor calçado que o dele. Como é que ele podia garantir? Não podia garantir nada mas enfim. Deu-me uma linha de 17 fios para cozer as botas. Ora, uma linha de 17 fios era uma linha com uma grossura enorme. Era um fio de cânhamo. Na altura de palmilhar a bota com a linha de 17 fios a linha não passava porque o fio era grosso. Meti uma sovela mais grossa e então a linha começou a passar. Ele ficou todo contente. Isto é que é bota para 2 anos de garantia. Nas linhas punha-se pez de sapateiro, pez de resina até ficar preta. Numas botas que comecei a passar esta linha e que eram de pneu, ele deu conta que o pneu estava todo cortado, porque o próprio ponto fino cortava aquilo tudo. Começou ele para mim: “você desgraçou-me, porque agora não tenho cá outro pneu para por nas botas, e agora como hei-de fazer?”. Ele fez ali uma “zaragatana” mas reconheceu que o erro foi dele e aquelas botas ficaram por acabar até ele arranjar outro pneu. Quando foi ao outro dia aquela ideia que ele tinha da linha grossa já não a levou por diante. Deu-me umas botas e não me disse nada. Eu fiz a linha de 6 ou 7 fios que era a linha normal e cozi aquilo tudo e a bota ficou boa e o homem não disse mais nada. Trabalhei ali várias semanas, o homem contente e eu também contente e já me pagava mais que me pagava o Sr. Zé. Há então uma semana que calhava a festa da Sr.ª da Saúde em Valezim e então a minha mãe disse-me para dizer ao meu patrão que tinha uma promessa para ir fazer à Sr.ª da Saúde a ver se ele me deixava vir um pouco mais cedo. Como ele tinha umas botas que era para entregar em S. Romão e não havia meio de estarem prontas aquilo já terminou era quase meia-noite e a minha mãe já andava à minha procura. Acabei por lá dormir em Vila Cova. Fez-me uma camita com um bocado de caruma de pinheiro e fiquei lá até de manhã mas não dormi nada. Logo pela manhã a minha mãe a bater à porta, descompôs lá o homem. Ele pagou integralmente tudo o que tinha a pagar e eu saio dali com a minha mãe directos à Sr.ª da Saúde. Todo o caminho levei porrada e a chatear-me a cabeça. A minha vida era sempre um calvário. Já andava farto disso. Na 2.ª feira já não fui para o Camilo e disse à minha mãe que não ia para mais patrão nenhum. Agora queria ficar em minha casa porque também já me ia aparecendo serviço.


Chegou a fazer sociedade com o Sr. Pires?
Um dia apareceu-me aqui o Sr. Pires, que estava em Lisboa, era sapateiro e já trabalhava naquilo há muitos anos mais precisamente em calçado de senhora. Era portanto mais evoluído. O seu tio Antoninho que estava no Brasil mandou ir um primo seu, o Garcia, para o Brasil. Por coincidência o Garcia a ir embora para o Brasil o Sr. Pires a vir ao funeral do pai e o Sr. Albuquerque a dizer ao Sr. Pires que lhe arranjava um bom lugar para não ir mais para Lisboa e que ia para o Grémio em Seia. Ele aceitou e um dia quando veio do trabalho diz-me para eu ir trabalhar com ele porque tinha comprado a oficina ao “sabe-tudo”, ao Inácio Póvoas, e fazemos uma sociedade. O Sr. Pires ajudou-me bastante ensinando-me algumas técnicas do corte, no desenho. Ele desenhava os moldes e eu fazia. Mais tarde disse-me que eu estava pronto a tomar conta da sapataria sozinho, disse-me para ficar com ela, não quis nada, nem sei por quanto ele a comprou. Eu fiquei ali a trabalhar. Ao fim de alguns tempos e porque eu não gostava de sapateiro e tinha a ideia de emigrar, comecei a pedir cartas de chamada para o meu tio Chico no Brasil, para o filho aqui do Inácio Póvoas que também estava lá. Do Brasil não veio resposta. Ninguém me respondeu. Mandei carta de chamada para África para um primo meu o António, aqui da Zezita. Esse respondeu-me. Vivia em Benguela. Disse-me que achava muito bem eu querer emigrar mas aconselhou-me a aprofundar mais conhecimentos sobre “salto forrado” que eram sapatos de senhora e aconselhou-me ir para Lisboa aprender para junto dos irmãos dele e quando já soubesse mais então que o contactasse. Uma bela ideia.


Como é que foi a sua aventura em Lisboa?
Eu lá fui então para Lisboa com o Fernando mas a “coisa” não resultou muito bem com o Fernando porque ele era um bocado quezilento. Na altura demorava-se um dia para chegar a Lisboa. Quando lá cheguei era de noite. O homem chateou-se comigo e perguntou-me se isso é que eram horas de chegar aqui. Porque ele ia buscar o material às casas e nós fazíamos o par em casa. Como era de noite já não dava para isso. Mas eu não tive culpa. Eu saí de noite de Torroselo e cheguei de noite a Lisboa. Era assim a viagem. No fim das explicações chamou-se um táxi e fomos até à loja dele buscar uns sapatos e um recibo com o nome do comerciante que naquela altura significava um termo de responsabilidade. É como que os patrões eram o meu fiador. Lá fui com o Fernando ali a uma rua perto do elevador de Santa Justa. Eu nunca tinha estado em Lisboa. E diz-me o Fernando assim: olha vais ali aquela loja e eu vou a outra, pedes três pares e o que chegar aqui primeiro ao elevador espera. Fui então ter com o senhor, pedi-lhe os sapatos, conferi todas as peças e pronto lá fui para junto do elevador à espera do Fernando. Esperei, esperei, esperei e o Fernando não apareceu. Já era quase meia-noite e eu comecei a ficar ansioso porque não conhecia ali nada. Meti na cabeça que tinha de ir a pé para casa. Foi um erro tremendo. Meti-me a caminho e ia perguntando às pessoas com que me cruzava pelo nome da rua da casa dos meus familiares. Andava um bocado, perguntava e assim sucessivamente. Andei naquilo tempos infinitos. Podia ter chamado um táxi, apesar de não ter dinheiro comigo, mas quando chegasse a casa pedia-lhe para esperar um bocado enquanto eu lhe fosse buscar o dinheiro para pagar, mas, com os nervos não me lembrei de fazer isso. Sei que cheguei a casa do Ribeiro eram duas horas da manhã. Bati à porta. O Ribeiro nada sabia. Deu um raspanete ao Fernando e perguntou-lhe se alguém lhe tinha feito isso a ele mas que amanhã conversavam. Às 5 horas o despertador a tocar para começar a trabalhar. Quando entrou naquela parte mais técnica ele disse-me que eu tinha a mania que era um bom artista mas afinal de contas não sabia nada. Eu disse-lhe que tinha vindo para aprender e logo ali começou uma guerra desgraçada, uma grande confusão. Bom, voltámos a sair, mandou-me à loja buscar sapatos e mandou-me esperar por ele. Como ontem também me mandou esperar por ele e fez-me o que me fez, desta vez fiz o que tinha a fazer e vim-me embora para casa. Não esperei por ele. Quando ele chegou já eu estava em casa há muito tempo, já tinha muito serviço feito. Logo me voltou a chatear. É que és um primo. Amanhã às 4 horas temos de nos levantar disse-me ele. Começou a guerra logo de manhã. Porque és assim, porque és assado, já és mestre, já és isto, já és aquilo, só a chatear-me. A guerra foi tanta que, por volta das 10 horas eu lhe disse que me ia embora. Ele chateou-se com a irmã, e, o meu primo marido da irmã quis saber o que se passou. Quando soube, disse-me que eu não me ia embora para lado nenhum. Quem tinha de sair era o Fernando,e, assim foi. Mandou-o a ele embora. Fui nessa hora à procura de trabalho para mim. Chegámos junto de um Sr. que se chamava Amadeu que logo me entregou trabalho. Umas botitas que se chamavam botas mexicanas. Ele deu-me essa bota mexicana em pneu e disse-me como era bota de feira que era para fazer rápido e que me ia pagar à peça. O homem pagou sempre tudo mas eu não era aquilo que gostava de fazer. Não estava satisfeito e disse ao meu primo Ribeiro que no Amadeu não aprendia o salto forrado e eu queria aprender o salto forrado para ir para África para o primo António. Amanhã vou contigo ao Joaquim ao Vale de Santo António ao pé do meu irmão Zé. Há lá um senhor que te ensina a fazer isso. O homem aceitou-me e disse-me que em dois dias já estaria apto a fazer o salto forrado. Eu fiquei admirado. Mas será assim tão fácil? Mandou-me consertar um sapato e quando acabei o conserto o homem disse-me que já estava preparado. Ao outro dia fui com ele á loja e já fui buscar serviço para mim.


Chegou a procurar emprego através de anúncios de jornais?
Em Lisboa sim. Vi uma publicidade no jornal “O Século” a dizer “sapateiro precisa-se”. Fui ter com esse senhor à feira da ladra. Também se chamava Martins. Pediu-me os sapatos que eu levava para amostra e disse-lhe que vinha do Sr. Cardoso e ele disse-me que o serviço do Sr. Cardoso era mais especializado que o dele e sendo assim não podia ser porque não tinha dinheiro para me pagar. Eu disse-lhe que isso não importava e que também lhe podia fazer um par para ele. Ele disse-me para levar mais que um…
O Sr. Martins pagava-me a 10 escudos cada par, passou-me a pagar 15 escudos e lá comecei a trabalhar e foi aí que comecei a trabalhar no salto forrado. Estive lá 5 anos. Ao fim desse tempo eu já era muito ambicioso e já não era o Martins que me seduzia. A mim seduzia-me a “LUIS XV” era o máximo que havia em calçado de senhora eu fui para Lisboa para ser o máximo. Eu nisso não me considerava um sapateiro. Considerava-me um técnico sempre a evoluir. Eu queria o mais. Um dia disse ao Sr. Joaquim que ia pedir trabalho à Luis XV e ele disse-me que eu já estava preparado e não tinha duvida que o encarregado me dava serviço logo à primeira que visse o meu trabalho. Cheguei lá e assim foi. Mostrei o par que levava de amostra e logo me deram trabalho para trazer. Fiz os sapatos que me pediram e fui lá levar. Verificaram o meu trabalho e logo me disseram quantos pares queria levar para fazer. Eu pedia dois. Sempre a trabalhar para a Luis XV, até que, há sempre um até. Nós trabalhávamos lá mais de 100 homens mas à peça. Um dia o Simões resolveu ir às feiras internacionais e foi a Hannover. Os italianos já nesse tempo faziam calçado à máquina. O Simões viu, esperto, e comprou máquinas para fazer calçado. Quando veio de Hannover a primeira coisa que disse foi “tal dia só preciso de tantos oficiais e os outros não há trabalho para eles porque vou passar para o regime de trabalho de máquinas”. Só preciso de 10. Fez uma seleção e eu fiquei sem trabalho e mesmo em Lisboa não havia trabalho em lado nenhum. Comecei a fazer uns consertos para a Madame Francesa, para o Sr. João Brás, amigos que conhecia, ali andei até que trabalho não tinha nenhum. Decidi querer mudar de profissão. Fui ao Gaspar pedir para serralheiro, já lá tinha metido o meu irmão António, também já estavam em Lisboa as minhas irmãs e os outros meus irmãos menos o Fernando que era o mais novito. Já os tinha arrumado a todos. O Gaspar não me pôde dar trabalho. Eu disse-lhe que ia para lá de graça mas de graça ele não me podia lá ter. Eu tinha pedido ao primo Ribeiro a ver se lhe arranjava trabalho nos correios. Nos correios havia dois problemas que o Salazar era terrível. Para se arranjar um emprego tinha de se ter a 4.ª classe e ser-se tropa. Dois entraves meus. Não consegui arranjar emprego em nada por causa destes dois entraves. Nem no correio, nem na carris, em lado nenhum. Passado muito tempo e não conseguindo trabalho tive de regressar a Torroselo. Com o dinheiro que já tinha amealhado, comprei uma máquina cilíndrica e outra giratória e vim com aquela vaidade de fazer uma oficina de categoria em Torroselo. Aluguei a oficina do Zé Pina. Já fazia sapatos de senhora mas mesmo assim ao fim de algum tempo ninguém comprava nada. Entretanto já tinha 25 anos e casei-me. Fui viver para aquela cerca que mais tarde foi comprada pelo Sr. Célinho que era a casa do Coronel Sacadura. A casa estava uma miséria. Entretanto falo para comprar esta casa onde estamos neste momento. Esta mesma casa. Era do Inácio Póvoas. Ele disse-me que a vendia por 9 contos e eu por esse valor não lha comprei e fui fazer as obras lá acima na casa. Lá gastei o dinheiro todo e para lá fui viver. Entretanto a Margarida nasce e quando começou a gatinhar a mulher do Coronel Sacadura que era madeirense e um pouco tramada começou a dar raspanetes à minha mulher que a garota lhe dava cabo do jardim. Aquilo nem jardim era. Eram uns malmequerzitos e umas telhas que a garota lá brincava com aquilo sem fazer mal nenhum. Um dia vou almoçar a casa e nem de propósito, a minha mulher nunca me dizia nada mas ela já a tratava mal. Eu ia a entrar e vi-a com grandes berros para a minha mulher e perguntei-lhe o que é que se estava a passar e ela ficou calada. A minha mulher lá me disse que a D. Aldora estava a berrar porque a Margarida lhe dava cabo das flores todas. Eu aí disse-lhe que a partir de hoje a casa é sua e a menina não lhe vai estragar mais o jardim. Fui ter novamente com o Sr. António a perguntar se ainda estava a vender a casa. Disse-me que tinha a palavra dada para o Elias por 12 contos que foi quanto ele lhe ofereceu. Então dei-lhe os 12 contos e fiquei eu com a casa. Quem vivia aqui na casa era o “aviador velho, o aviadorzito”. Cheguei ao pé dele e disse-lhe que tinha de sair e tinha de ir para a casa dele em S. João. Não quis sair porque alegava que pagava uma renda. Ameaçou-me com advogados e eu dei-lhe 15 dias para sair. Quem lhe tinha arrendado a casa foi o Sabino que sem falar com o dono da casa quando foi viver para a casa onde está, pôs aqui o “aviadorzito” sem falar com o dono. Aí foi uma arma a meu favor. Fui novamente ter com o Sr. António a dizer-lhe que também eu já tinha ido falar com um advogado e ele tinha 15 dias para sair. Ao fim desse tempo se não sair arranco as janelas, as portas, arranco tudo. Passados um ou dois dias o Sr. António (aviadorzito) veio ter comigo a pedir desculpas e a dizer que está enganado mas que precisa de mais tempo para arranjar a casa em S. João para então ir para lá viver. Ao fim do tempo ele lá saíu e eu cá vim viver para aqui até aos dias de hoje.


Emigrou para Angola. Ainda lá esteve quantos anos?
Como aqui a vida não dava nada, emigrei para Angola 10 anos. Fui para Luanda. Foi o tio “Talaça” que me mandou ir e fui para ir trabalhar para o Lagos & Irmão que eram de Oliveira do Hospital que trabalhavam no ramo do café e do algodão. Então o Talaça arranjou-me para ir trabalhar para uma fazenda de café. Eu vou daqui sem saber que era para trabalhar para uma firma de café e ele diz-me para levar tudo de sapateiro. Eu levei as máquinas, levei as formas, levei tudo e lá fui eu para África. Demorei 12 dias de martírio, sempre a vomitar. Só parámos no Funchal. Estavam à minha espera o Talaça, o Pedro e outro rapaz que andava também na tropa. Lá vamos nós direitos a uma pensão chamada Stadium. Lá almoçámos, comemos e bebemos uma grande farra. O Talaça nesse dia diz que já não ia para casa e que segunda-feira tínhamos de ir aos escritórios falar com o Dr. Para ele depois me dizer como havia de fazer para ir para a tal fazenda. Já depois de comidos e bebidos vai-me ele assim: “olha segunda-feira já arrancas para a Margarida”. Quando ouvi falar Margarida eu digo assim “mas qual Margarida oh tio?”. Então o meu emprego não é em Catete ao pé de ti para a fábrica de algodão? Eu não vou para Margarida nenhuma. Diz-me ele que vou e vou mesmo porque é o emprego que ele me arranjou e já está tudo tratado como Dr. Então nesse momento disse-lhe que ia já para Portugal amanhã. Diz-me ele: isso é que era bom. Ao outro dia passou um rapaz a vender jornais, era o “Província de Angola” e pedi-lhe um. Estava lá um anuncio a dizer sapateiro precisa-se. Pedi ao tio Talaça para me lá levar aquela morada. Era então o Sr. Salvador André de Vila Nova de Foz Côa. Eu disse para ele não me fazer contrato nenhum. Eu não era empregado dele e ele não era meu patrão. Eu amanhã apareço aqui de manhã e venho à experiência. O meu tio ficou todo chateado porque tinha de dar explicações ao Dr. porque afinal eu já não queria ir e já tinha arranjado trabalho. O Dr. percebeu muito bem a minha vida e lá se compôs tudo para alívio do meu tio. Lá fui trabalhar á experiência para o Sr. Salvador. Quando lá cheguei comecei a trabalhar à minha maneira e o Sr. Salvador muito admirado a olhar para o meu trabalho. Nunca tinha visto nada igual. Uma perfeição, uma técnica nunca vista em Angola naquela altura. Disse-me que tinha lá uma revista que tinha uns sapatos e se eu lhos fazia? Pedi-lhe a revista, vi os sapatos e disse-lhe que sim que os fazia. O homem ficou admirado. Comecei a desenhar o molde, o sapato num papel, pus o molde em cima da forma, mostrei-lhe na forma se era aquilo, ele disse é isso mesmo, e pedi-lhe a pele para cortar. Ele queria ser ele a cortar a pele eu não deixei. Quem corta sou eu. Cortei o sapato, desbastei e diz-me ele que agora tem ali a costureira e eu disse-lhe que a costura também sou eu que a faço. Ficou admirado e perguntou-me se eu é que ia costurar o sapato. Tirei a minha máquina da mala, era uma máquina melhor que a dele e comecei a costurar o sapato. Diz-me ele assim “não me diga que você faz mesmo o sapato todo?”. Pois faço Sr. Salvador. Fiz-lhe o sapato e no fim virou-se para a mulher e disse-lhe “oh Noémia temos mesmo o homem que desejávamos”. Veio a questão do ordenado e o homem pensou que eu não ia aceitar a proposta dele. Pensou que não tinha dinheiro para me pagar. Ofereceu-me 2.200 escudos. Eu aceitei. O homem ia ser operado e diz que assim ia mais descansado. Quando chegou depois da operação disse-me que já não podia continuar lá comigo mas que não tinha dinheiro para me pagar. Lá resolvemos tudo como deve ser e fui-me embora. Fui ter com o Belmiro que era um rapaz do norte que tinha cá deixado mulher e filhos mas vivia com outra mulher em Angola. Nessa altura o Salazar obrigava-o a mandar o sustento para os filhos e ele nunca mandou. A Pide “pumba” em cima do Belmiro. O Belmiro andava lá em Luanda à rasca que não sabia como resolver a vida. A todo o momento podia ser preso e enviado para Portugal. O Belmiro disse-me se eu queria ficar com a casa dele, o Quim dos Santos estava ao pé de mim e disse-lhe que faziam já ali o negócio. Pediu 50 contos, eu disse-lhe que era muito mas o Quim dos Santos disse-lhe que era já negócio fechado. Deu 50 contos ao homem que se pôs logo a andar. Aquilo para ele foi um achado. E eu ali fiquei até vir.


De que forma a crise afectou esta arte?
Afectou porque hoje não há poder de compra e as pessoas compram tudo chinês sem qualidade nenhuma e o que vem para consertar é só um conserto que é uma colagem, uma capa, e, muito pouco.
Há diferenças entre os sapatos de há 20 anos e os sapatos de hoje em dia?
Hoje compra-se aquele sapato que se estraga e manda fora. Eu só há dias pus aqui umas meias solas só ao genro do meu primo Pereira. Passam-se meses sem aqui meter umas meias solas.


Qual é o serviço que mais faz?
Colados de calçado chinês, uns pontos de máquina e alargar sapatos com a máquina de alargar o sapato. Alargar sapatos é quase todos os dias porque as senhoras compram os sapatos justos. Antigamente havia o meio numero agora não há e isso acontece muito ter de alargar sapatos. Na maioria trabalho com sapatos de senhora.


Nesta região do Vale do Alva provavelmente o Sr. Luis é o único sapateiro ainda em exercício?
Provavelmente. Várzea era a terra dos sapateiros não há lá nenhum. Torroselo sem ser eu nenhum trabalha. Folhadosa nenhum trabalha. Sandomil e Vila Cova também já nenhum trabalha. Eu hoje por acaso tenho aqui 3 pares de capas para fazer pela simples razão que aconteceu um percalço a uma senhora aqui num sapato. Um cãozito deu-lhe cabo do sapato. Mordeu-lhe o sapato e está aqui um “berbicacho”.
Torroselo tal como a maioria das aldeias tem perdido população.


Nota-se isso aqui no dia-a-dia na sua rua?
Praticamente não se vê “viv´alma”. Passam-se horas, horas e horas que não passa uma única pessoa. Eu todos os dias dou uma caminhada de manhã, não encontro uma pessoa em hora e meia. Vou até ao km 88 e venho e não encontro uma pessoa. Mas isto se for a Várzea ou Folhadosa é igual.


Acha que Torroselo tem potencial para desenvolver mais iniciativas além das festas?
Eu converso todos os dias com o Sr. Lopes aqui nos balcões da Igreja, horas, horas e horas. A agricultura morreu, não dá. É cara e por vezes não paga o custo da semente, dos inseticidas e isso. Mesmo que venda não dá para os custos. A agricultura está morta. Na questão das plantações aqui a única coisa que é rentável são as oliveiras e mesmo assim dá muitos custos. Na minha ideia de ver e com os anos que já tenho e com a minha experiência de vida que tive em África, em Lisboa e por todo o lado, pensando e repensando, aqui só existindo alguém, um mecenas que investisse numa pequena empresa familiar e que fosse o suporte com ideias de algo do futuro.


Que diferenças e semelhanças vê hoje em relação há uns anos atrás relativamente à nossa Banda de Música?
A Banda para mim não vai sobreviver e não vai sobreviver nem com mecenas, nem sem mecenas. Não vai sobreviver por falta de matéria-prima, por falta de elementos. Como sabe todas as terras hoje continuam com as bandas mas têm de ir buscar garotos a outras terras e assim vão-se enganando uns aos outros, vão aguentando o que não é aguentável. Adiando a morte, uma morte lenta, mas são todas não é só a nossa banda. Você veja a banda de S. Romão é tudo uma garotada e já não são todos de S. Romão, uma terra tão grande e também tem dificuldades em arranjar elementos. Isto dá muitas despesas. Hoje até porque nem estou por dentro disso, até nem sei como estará a banda de Torroselo pagando ao mestre um valor que ninguém paga aqui na área a ninguém. Vem aqui um de St.ª Marinha que vem aqui trazer o gaz que vai de St.ª Marinha a S. Gião três vezes por semana por 300 euros por mês. Trabalha no Marques e Alves. Andei na banda desde os dez anos. Andei lá cinquenta e tantos anos. Elemento, director, dirigente, mestre e musico, fiz lá de tudo, fazer compras, ir buscar compras, sempre gratuitamente. Cheguei a ir a Salamanca comprar dois instrumentos porque poupei cem contos naquela altura nos instrumentos que comprámos lá.


Uma palavra para os Torroselenses residentes e outra para os Torroselenses emigrantes que vão ler a nossa entrevista.
Acima de tudo desejar-lhes muita saúde principalmente e a todos os familiares e que continuem bem em prosperidade nos seus trabalhos e nas suas vidas e que se pensarem vir para a nossa terra que pensem primeiro porque já não é a terra deles, a terra que os viu nascer, porque ao chegarem cá ficam pasmados, vai ser uma decepção e vai ser difícil a adaptação. Era importante que voltassem mas depois vão notar que aqui não há praticamente nada e não se vão cá aguentar. Eu vou todos os dias ao café jardim beber o meu café e pouco mais. O café jardim é o do seu primo Luis Brás lá acima. Aqui pouco mais há que fazer. Torroselo teve um erro muito grande, teimosamente foi votando em quem não devia votar e depois fomos muito prejudicados. Não se fez o que deveria ter sido feito e hoje já não se pode fazer e aqui nunca mais se fez nada. Repare, caímos no abismo. Já não se vai fazer aqui mais nada, porque agora o que vem ultimo é que fecha a porta, mas esta porta já está estragada. Por exemplo não vos deram oportunidade a vocês, um erro enorme, um erro tremendo, tremendo, tremendo que custou caro a esta gente. Você veja neste tempo todo…zero, nada feito. Espero que Torroselo venha a ter dias muito melhores, mais prósperos para todos, mas, vai ser cada vez mais difícil.