Jornal Letras do Alva   •   Director: Luís António Silva   •   Ano: III

Grupo de cidadãos de Seia foi a Pedrógão, Castanheira de Pêra, Vila Facaia e Figueiró dos Vinhos levar ajuda às vítimas dos incêndios

Grupo de cidadãos de Seia foi a Pedrógão, Castanheira de Pêra, Vila Facaia e Figueiró dos Vinhos levar ajuda às vítimas dos incêndios

No passado dia 24 de junho desloquei-me numa coluna de 7 viaturas com partida de Seia para o teatro de operações dos incêndios que aconteceram em Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Vila Facaia e por aí adiante. Saímos às 6 da manhã.

Esta coluna de viaturas foi levar ajuda às vitimas dos incêndios daquela zona do País, ajuda que durante alguns dias andou a ser recolhida no Centro Comercial de Seia por iniciativa do cidadão João Pedro Nogueira, da sua esposa e alguns amigos que num gesto voluntário e altruísta quiseram dar um pouco da sua vida pessoal e entregarem-se aquelas pessoas que estão a sofrer, que ficaram sem casa, que viram morrer os seus vizinhos e os seus familiares e que vivem hoje o seu maior pesadelo, o pesadelo que os acompanhará para toda a sua vida. São com certeza dores físicas provocadas pela força no combate às chamas em defesa daquilo que é seu, mas serão acima de tudo dores psicológicas que nunca mais terão cura.

Aliou-se também a este grupo o Daniel Melo e a sua esposa Catarina, natural de Castanheira de Pêra e por isso conhecedores do que se lá passou e da tristeza que por lá vai, tendo também angariado bens no seu estabelecimento para levarem neste dia.

As chamas arrasaram aquela região.
64 mortos, mais de 200 feridos, casas ardidas, quintas devastadas, fábricas ardidas, carros queimados. O cenário é dantesco. O cenário é de parar, olhar e ficar ali a chorar horas a fio a pensar no que terá sido a aflição de tanta gente de ver avançar as chamas em sua direcção e saber que iam morrer e nada poderem fazer. É horrível pensar nisto.

Presenciei em 2005 o maior incêndio no nosso Concelho de Seia. O incêndio deflagrou a 19 de Julho em Vide, concelho de Seia, distrito da Guarda, em que ficaram queimados 15.837 hectares. Muita gente residente naquelas 28 anexas tiveram de ser desalojadas à força por elementos da GNR de Seia. Eu estava lá. Muitas daquelas pessoas não queriam abandonar as suas casas, mordiam os braços dos militares, agarravam-se às portas, tudo faziam para não as tirarem de casa. Apesar de tudo isso, se não fosse a acção da GNR nesse ano o que se passou com o incendio de Pedrógão tinha-se passado no nosso Concelho e tinham morrido muitas pessoas.
O que se passou há duas semanas em Pedrogão e naquela região à volta era impensável acontecer e pelo que vi não era possível socorrer aquelas aldeias que ficam lá no “buraco” de difícil acesso em condições extremas, em condições de incêndios. Quem é que lá se metia? As condições morfológicas daquela área geográfica impossibilitam qualquer tipo de apoio terrestre naquele tipo de cenário de fogo. Ninguém se lá consegue meter, pois, além das chamas as temperaturas segundo alguns especialistas chegaram quase a 1000 graus.

Pelo que presenciei no local o grande problema não esteve no SIRESP mas sim na falta de ordenamento do território que já por si morfologicamente é de difícil acesso. O grande problema que se passou ali foi que as árvores se encontravam junto á estrada o que definitivamente não pode ser. É urgente legislar para que as árvores junto a estradas não possam estar a menos de 5 metros de distância. Se assim fosse as chamas não teriam chegado às estradas. É URGENTE FAZER ESTA LEI não só por causa dos incêndios mas até por questões naturais que possam causar a queda de árvores e assim evitar problemas aos automobilistas.

Acompanhei a equipa de voluntários de Seia a Pedrogão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos e Vila Facaia. Em todas estas localidades fomos recebidos pelas maiores figuras das autarquias. O Presidente da Câmara de Pedrógão, O Presidente da Câmara de Castanheira de Pêra, O Presidente da Junta de Vila Facaia e a Sr.ª Vice-Presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos. TODOS se encontram devastados e desolados nos seus corações. Lembram os amigos mortos, lembram a tragédia nunca vivida, choram por dentro. Apesar de tudo isso, começam a passar a mensagem que agora é preciso pensar nos vivos e tudo fazer para o mais rapidamente possível lhes proporcionarem as melhores condições de vida. Não é tarefa fácil mas estão dispostos a lutar e mexer tudo o que for preciso para voltarem à normalidade que nunca mais vai ser a mesma. Pedem aos órgãos de comunicação social para deixarem de chamar a “estrada da morte” pois isso está a prejudicá-los mais. Temem perder turistas naquela zona nos próximos anos devido ao que aconteceu. Já se pensa no futuro mas o presente é negro. Os pontos de recolha dos bens doados estão cheios. Chegam de todo o País e até do estrangeiro. Pede-se uma certa acalmia na doação de mais bens por temerem que alguns se possam estragar. É preciso agora concentrar todos os esforços para uma correcta distribuição desses bens. Têm de chegar a quem mais precisa, a quem ficou afectado e não se pode demorar na entrega. Há pessoas que perderam tudo.

Aqui entrou o enorme coração do João Pedro Nogueira, do Daniel Melo e de todos os Senenses que doaram bens para se entregarem às vítimas dos incêndios. Os bens chegaram em 7 veículos gentilmente cedidos pela Protecção Civil de Seia, União de Freguesias de Seia, PJPinto carpintaria, Figueiredo Engenharia e Design, entre outros que emprestaram as suas viaturas para se transportarem os bens. Antes foi feito um enorme trabalho de divulgação junto da comunidade Senense e até de Gouveia que se quis associar a esta vontade que nasceu dos cidadãos voluntariamente e que talvez por isso tenha congregado tantos apoios, tanta ajuda que no dia 24 de junho chegou ao destino.
Os bens foram entregues nos locais próprios de armazenamento indicados pelo Presidente da Câmara de Pedrógão Grande e pela sua esposa que ficámos a saber é natural de Pinhanços, locais esses pertencentes à autarquia mas também à Santa Casa da Misericórdia local, de seguida a coluna deslocou-se para outro pavilhão ainda em Pedrógão para deixar colchões e camas. Dali seguimos rumo a Vila Facaia uma localidade que perdeu 40 habitantes. A comunidade está constrangida, triste sem quererem ainda acreditar no que aconteceu. O Presidente da Junta de Freguesia encaminhou-nos para os armazéns atrás da junta onde se descarregaram mais apoios. Na vitrina anunciam-se os horários e os dias dos funerais de algumas das vítimas. Anunciam-se também os bens que estão a ser mais precisos. A população está em choque assim como os cidadãos da missão de Seia ficaram quando chegaram a esta aldeia. A tristeza pairou, bateu no coração.

Tristes mas Fortes, “os missionários de Seia”, desculpem-me o termo mas foi assim que eu vos vi, arrancaram para outra terra. Seguiu-se Castanheira de Pêra. Ali fomos recebidos pela Sr.ª Vice-Presidente e mais tarde recebemos a visita do Sr. Presidente durante o almoço o qual veio agradecer a ajuda trazida da serra da estrela. Antes disso foram distribuir alguns bens a casa de uma senhora que perdeu a sua fábrica. Os seus trabalhadores também foram arrasados. Pede-nos do coração para deixarmos alguma coisinha para eles também.

Fala-se dos amigos que perderam a vida, fala-se dos amigos que todos os dias diziam bom dia e que a voz se calou para sempre. O vazio também está instalado em castanheira de Pêra. Olhamos em nosso redor e vemos tudo queimado, tudo cinzento, tudo negro. É de perder de vista. A área ardida equivale a 53.000 mil campos de futebol. Almoçámos em Castanheira de Pêra, em casa dos pais da Catarina Melo casada com o Daniel Melo e natural de Castanheira de Pêra. Os pais fizeram questão que lá almoçássemos como forma de gratidão pelo gesto e pela atitude destes Senenses. De seguida a missão da distribuição da ajuda continuou rumo a Figueiró dos Vinhos. Ali fomos encaminhados para o pavilhão do Centro de formação onde fomos recebidos pela Sr.ª Vice-Presidente. Estavam no local voluntários a entregar bens mas também a ajudar na separação do que era entregue. Uma Associação humanitária estava a carregar a carrinha para levar para outro armazém. Os escuteiros estavam também em todo o lado a ajudar na separação dos bens. Tudo estava a ter a ajuda da sociedade civil. Vimos muitos voluntários, muitos bombeiros, muitos escuteiros nestas tarefas. Vimos miliares exaustos a descansarem no chão. Vimos o que nunca vimos nesta dimensão da tragédia propriamente dita. Vimos a força da natureza, a força do fogo, a devastação. Vimos o caos.

Estou certo que apesar de tudo isto “os missionários de Seia” vieram para cima de coração cheio. Ajudaram quem mais precisa nesta altura com a sua boa vontade. Ganharam com esta atitude altruísta e voluntária o coração de muitas pessoas.

Eu, como Assistente Social e Jornalista com carteira profissional nunca vi nada assim e agradeço por ter participado nesta missão para poder relatar, avaliar e medir o grau de tristeza, o grau de necessidades que são precisas nestas horas de devastação. A vida humana não tem preço e estou convencido que esta equipa que foi de Seia para aquela zona do país fazer o bem estará pronta para ir onde Portugal precisar deles.
Bem hajam pelo que fizeram. Deus vos abençoe.

   

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